quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O Diabo de Capanema

Certa feita, um carroceiro gritava com seus bois, fatigados pela carga excessiva de toras de peroba. Era ajudado por seu filho, que chicoteava grosseiramente os animais, não avaliando que era impossível os bois saírem do local, um lamacento buraco. Os bois respiravam aos sufocos, largando uma saliva espumosa pela boca, enquanto o homem esbravejava.


Aos urros e berros ecoantes, com blasfêmias de todas as espécies e contra as divindades, os animais se contorciam de um lado para outro, sem o efeito esperado que o carro pudesse ser removido dali. O homem recorreu a todos os santos e demônios; por fim, gritou: “talvez quem pudesse nos ajudar, só mesmo o diabo!”. E o seu santo, naquela hora, passou a ser o demônio, já que não resolveram nada os demais santificados. Que surgisse, então, o demônio. Para resolver uma situação que se encontrava sem remédio.

Repentinamente, ouviu-se um barulho, com grande claridade e um pouco de fumaça. Lá estava “ele” sobre as toras amarradas na carroça atolada, lançava pela boca e olhos uma lasciva chama avermelhada e observava o carroceiro atônito. O carroceiro pôs suas mãos no bolso à procura de um rosário e encontrou somente fumo de rolo. Tentou se lembrar dos seus santos e recitava até orações nunca ouvidas! Mas nada resolvera.

Ele, o diabo, continuava ali, sentado e indiferente ao homem que tentava agora se lembrar dos santos e dos desafios que fizera anteriormente contra a divina providência. Enquanto isso, como por encanto os bois lentamente saíram da lama e caminhavam com o peso, como que ajudados por alguma força diferente, invisível.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O Apocalipse do Sertão - Quarta Porteira: Resistência (Diário de bordo - quarta parte)

Ponta Grossa, 17 de junho de 2008


-"Me perdoe, grande latifundiário da cidade se minha presença lhe agride tanto".

Em meio a chuva ele gritava isso a um velho que estava de botas fumando charuto e tendo os sapatos engraxados por um guri. E sua ironia indignava mais ainda aquele "senhor de terras" dos Campos Gerais que parecia ter se arrependido de ter pronunciado aquelas duas palavras: "cabeludo viado".

Camiseta xadrez, cabelo comprido, calça rasgada... Meses foram o suficiente para aquele rapaz ingênuo do interior do Paraná  enfrentar os mandos e desmandos da "cidade grande".


Se adaptar? Juntamente de seu fiel companheiro Tenor que cantava ópera pelas ruas da cidade e falava italiano ele não se sentia capaz disso, mas sim de interferir e transformar! 

O sistema o abominava, os valores estavam mudados e toda simplicidade da vida foi trocada por um jogo de interesses. Hoje, escutando o barulho da água que cai lá do alto, tudo passa a fazer sentido.



Coronel Vivida - 17 de dezembro de 2011, 16:07
tocando "Bicho do Paraná"
no Vargas
Eu o vejo! Antes desse grande fim, da catástrofe anunciada e prevista alguém viveu dando a outra face e reencarna carregado de feridas e chagas na alma.


Sua dor é tão grande que ele apenas tem uma alternativa. Fugir!


Longe dos "grandes" centros, com "grandes" pessoas e suas "grandes" importâncias.

Um cara como qualquer outro, mas que ao invés de abrir sorrisos pra qualquer um mandava tudo "se foder" e fazia cara feia em público.


Os matos eram explorados e ali ele dizia achar um novo sentido para o seu EU.

Uma viagem psicológica e psicotrópica. Ele buscava o que chamava de "uma pira verdadeira" e procurava refletir isso no estilo de música e na sua forma de se vestir. 

E, de repente, foi alvo de indignação, pois mesmo querendo pegar as cavalas do sertanejo universitário não conseguia se aproximar delas pagando "gole" e botando "banca", ele buscava nas mulheres o sentimento.

Odiava roupas novas, pois se apegava a suas vestes antigas e até mesmo rasgadas.

Percebeu que a forma de pensamento dominante na sua época era enrrustida de dos preconceitos enlatados de 30 anos atrás, do desenvolvimento tecno-facista. Pois via os miseráveis defendendo aqueles que geravam sua miséria

Fugia, simplesmente isso, sendo um pequeno burguês aproveitava o que o mínimo que o sistema lhe oferecia, não conseguia servir ao capital e em alguns momentos se sentiu incapaz de arrumar companhia por conta disso.

Um dia depois de um bico numa cachoeira soltou expotaneamente um berro: EU SOU UM PIÁ!

Mas ele não é nosso herói, é talvez um louco, um pseudo-esquerdista metidpo a revoltado, a maior fraude comunista-hippie-beatnik esfacelada e materializada no corpo de um pequeno-burguês vestido que queria ter nascido mendigo. 

Seu fim se deu num campo de flores, durante a primavera. Não foi ele quem criou a contra-mola que traria primavera segurada entre os seus dentes!


Sepultou os seus sentimentos negativos em meio a toda destruição daquele Apocalipse, ele renascia.


Intoxicado pela doçura da vida que era o néctas daquela estação. Ele sempre volta enxer o saco com suas "baboseiras ideológicas", mostrando que foi o padeiro que vendeu os melhores sonhos, foi o bodegueiro que não cobrava fiado, foi nadador de rios e cachoeiras, foi admirador dos beija-flores e borboletas, foi o violeiro nos bares dos velhos boêmios, foi proseador e chimarrãozeador entre as tiazonas velhas, foi o mais servil amante e fui sobretudo o maior cozinheiro de Genghis-Khan dum acampamento qualquer que não lembro onde foi...

O profeta dessa Apocalipse não era um monge budista capacitado por seu interior. No ronco dos motores sua meditação era o Rock n'Roll que bradava acompanhando o ritmo dos rios e a queda das cachoeiras que caíam como suas lágrimas ao produzir essas palavras.

Ele era a RESISTÊNCIA e o SERTÃO era seu aconchego, já que todas as vezes que voltava pra cidade era chamado de BICHO DO MATO.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Branca Leone, o gringo que comeu a Gema sem quebrar o ovo

Era pra ser mais um dia normal e tranquilo na bodega da Linha São Paulo, no último ano da década de 60. Mas sabem bem os leitores que tal estabelecimento, para fazer jus ao seu nome, necessita ser o palco de algumas brigas banalizadas, apostas fúteis e mentiras bem aplicadas. E acrescente-se: escândalos sexuais-comunitários também.

Lá pelo décimo trago, um grupo de gringos realizava o concurso de eucentrismo, a máxima representação dessa coisa que a espécie humana tem em ressaltar as qualidades e esconder os defeitos. Um dizia ter colhido o melhor feijão da região, outro ter carneado um leitão que deu mais de 100kg de banha, outro lá dizia ter o cavalo mais rápido, ... Mas era sabido que a veracidade habitava as palavras do João do Poço, enquanto este falava das habilidades e vitórias de seu galo de rinha. Batizado de Jânio Quadros, em razão do semelhante hábito ao do ex-presidente em tomar uma de vez em quando e pelo andar torto, o animal era conhecido em todo o sertão pela boa habilidade em ser mau. Mais feio que indigestão de torresmo, na arena o galo índio muía os adversários.

Foi este raro espécime que despertou a cobiça de Angelin Brancalione (mas chama de Branca Leone que o pessoal conhece mais). O gringo ouvia a conversa no bar e propostiáva o dono do galo com vistas a fechar uma negociação.
- Te dou uma novilha manca.
- Não.
- Uma fublé enferrujada.
- Menos ainda, imundiçia.
- Trêis borsa de feijão véio?
- Do meu galo não me desfaço tão fácil – dizia João do Poço, mais duro de dobrar que salame da colônia.

Mas Branca Leone não era de fácil desistência. Podia ser monte no bríque, mas era ligeiro na malandragem. Começou com a fala mansa e logo foi atraindo a atenção dos presentes dizendo ser capaz de algo até então impossível para a humanidade eurosudoestina: comer a gema sem quebrar o ovo. De pronto começaram as dúvidas e Branca Leone agora é quem se fazia de difícil. Todos imploravam para ver o feitio do gringo, mas ele só o faria em troca do galo, que após muita insistência foi objeto da aposta. Sua habilidade quase que transcendental seria comprovada na semana seguinte, conforme combinado, no mesmo recinto, no mesmo horário.

Dito e feito, na quarta badalada do relógio apareceram todos à bodega. Era evento maior que a festa do padroeiro. Até o padre Moisés e o coronel Pacheco Lustosa se achegaram a garantiram um lugarzinho no estabelecimento, no dia que já contabilizava a maior venda de pinga com mentruz da história da Linha São Paulo, até mais que quando o time local foi campeão do torneio municipal, num jogo conhecido por “Massacre do Varzeano”: foram dois mortos, cinco elijados e um capado. Aliás, o time só ganhou por ter tirado mais adversários do campo na base do tiro, da faconada e do grito.

Com poucos minutos de atraso e já alguns tragos na cabeça, surge na porta da bodega a estrela principal do dia e figura de idolatria entre seus contemporâneos locais. Alguns espectadores passaram mal em razão da alta taxa de adrenalina, outros tiveram crise de asma e teve uns que caiam de beudo mesmo. Branca Leone cumprimenta com um típico “taaaarddeeeeeee”, dá dois passos à frente, verifica que não há ninguém na retaguarda, arreia a calça com guaiaca e tudo, põe uma mão na cintura, e diz, batendo com a outra no saco:
- Tá qui, ó. Não quebrei nenhum dos meus dois ovo. Se quiserem confirmá podem até vim passá a mão, mas sem viadage.

A multidão, atônita e meio sem entender aquele ato de pudor, não manifestou nenhuma reação. Apenas consentiu. Não obtendo resposta alguma contestando a veracidade de seu feito, Branca Leone ergueu a calça, assegurou o fechamento do zip, pegou o galo Jânio, que por direito agora lhe pertencia, e foi embora. Somente dias depois é que, pela boca do bodegueiro, se espalhou a notícia de que Branca Leone havia mantido relações sexuais com uma tal de Gema Lustosa, moça filha do coronel Pacheco, e não sofreu nenhuma avaria nos testículos. Cumpriu, assim, sua palavra de que comia a Gema sem quebrar os ovos.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O Apocalipse no sertão: Terceira porteira: A Paz (Diário de bordo - terceira parte)

Paz, 16 de novembro de 2011, 16:04

E eis que escrevendo sobre a própria vida, parei na comunidade de Paz para escutar a História dos outros. Agora transcrevo o que ouvi.


Uma vez uma mulher possuía uma doença inexplicável e extremamente depressiva

acordava no meio da noite e chorava sem parar. Seu filho de 12 anos a pedia:

-'Manhê', por que tu chora? Não chora mãe!

Bodega do Seu Bastião
onde me foi relatada essa História


Sem resposta, a velha polaca fazedoras de cucas e doces, dona de uma padaria caseira continuava seu pranto interminável. Rogou a todas as Nossas Senhoras que conhecia pedindo que aquele sofrimento de anos se findasse, desde a de Fátima, passando pela virgem Aparecida, do Perpétuo Socorro e até Nossa Senhora da Cabeça. Pediu também para São Braz, São Bartolomeu e até Santo Expedito. Suas preces não foram atendidas. 

O chamado "Papai Noel"
da Paz contando um causo
Numa noite quando a chuva caía violentamente sem cessar entre "relampejos" e trovões, Dona Gertulina sentia imensas dores no pulmão que lhe faziam sofrer mais ainda, não aguentava nem com as pernas até que se ajoelhou e do nada pediu a São Jorge, o último santo conhecido, o 13o. santo chamado por sua voz.

E disse:

-Jorge (tinha o costume de chamar os "santos" com afinidade), ocê que é chamado guerreiro, que cativou o dragão do mal e o tornou bom, me faz curada, me mostra a cura nem que seja por um andarilho desses que vem aqui pedir 'as coisa'. 


São Jorge da Capadócia
representado na Igreja
Ucraniana Oriental
Após aquele pedido, a chuva parou. E ela se convenceu de que poderia dormir. Caiu na cama, até que no outro dia, a tarde como acontecia frequentemente apareceu um andarilho desconhecido com os cabelos que pareciam não serem lavados há tempos, grandes mechas que diziam parecer um novelo de lã de ovelha. Ele ali parou e pediu um copo d'água e logo também lhe foi oferecido o cepo pra sentar. O homem cansado pediu um "pôso" para se abrigar da chuva e Gertulina não recusou. Na janta lhe serviu uma sopa quente não sem antes agradecer pelas vendas na padaria, pelas amizades na comunidade e até pela chuva que caía e daria uma boa colheita naquele ano.


O andarilho após dizer amém olhou para a mulher e perguntou: 


- Dona, tu parece tá sofrida.


Sua resposta foi uma lágrima escorrida que parecia queimar-lhe o rosto. Ele logou lhe falou:


-O que tu 'teim' de 'fazê' é um remédio que eu 'vô' te ensina. Tu pega uma folha de 'loro' e corta um pedacinho de cipó-sumo daqueles que tem ali 'atrais' da casa. Ferve e toma tudo num golaço que meio que desça te queimando os 'purmão'.

Gertulina anotou a receita da xaropada num papel amarelado. Na manhã seguinte, o andarilho se despediu e agradeceu a comida, o "pôso", e a comida até se findar pelo horizonte para nunca mais ser visto.


Seu João, o filho de Gertulina segurando
um pedaço de cipó-sumo que dizem que
afina o sangue e combate a hipertensão
A padeira ao tomar a xaropada caiu dura no chão e horas depois de um sono profundo acordou com seu filho lhe segurando a mão e seu marido cerreiro que estava na estrada há mais de 20 dias a observando da porta. 
A cerraria de Paz

Abraçou ambos e agradeceu a Deus sorrindo para nunca mais chorar. Ninguém sabe nem sequer o nome daquele andarilho, mas eu tenho por certeza que era Jorge.


Agora eu descobri que a Paz existe, ele está dentro dos nossos corações e nas histórias que carregamos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Apocalipse no Sertão - Segunda Porteira: Êxodo da Babilônia - Reserva de Mangueirinha e Serra da Esperança (Diário de Bordo - segunda parte)

Nascer do sol na Reserva de Mangueirinha
"E vou seguindo
Caminhando, me espanlhando
Levando poeira no meu coração


Eu vou, eu vou
Sem olhar pra trás" (...)






                                                                                                              





"Eu quero ir embora antes de parar" (João Lopes e Blindagem)

12 de novembro de 2011
05:37

A História volta a ser uma viagem, violão nas costas, revistas zines na mala...

Professor, universitário? De forma alguma, o personagem que vos fala transmutou-se num maluco de BR, sobre duas rodas e sob uma lua, um micróbio se espalhando por esse corredor que é o Paraná ainda de madrugada... O dia viria me recepcionar somente mais tarde.

"Eu, eu ando de passo leve pra não acordar o dia

Sou da noite a companheira mais fiel qu'ela queria" (Raul Seixas) 

A lua foi companheira do início da viagem cósmica, minha fuga do sertão até a cidade civilizada. Sobre uma moto tudo é passageiro, Pato Branco, Coronel Vivida, Mangueirinha...

A primeira parada foi na companhia do sol, eu amanhecia perante a maior reserva de Araucárias do mundo, 17.308,07 km quasdrados de mata preservada pelos Kaingang e Guarani que ali vivem.

A lágrima que desceu foi um abraço na paisagem e um desejo que a força das lutas indígenas não cessem. Mandei boas vibrações ao cacique Valdir e logo relembrei os ensinamentos do BAGHAVAD-GITÃ e o calor daquele choro representou o grande ensinamento de Krishna,  o espírito da História andava agora na contramão (LEIAM O BHAGAVAD-GITÃ).


Do outro lado da História vejo um velho com uma enxada e um cabelo com dreads naturais do sertão, sentia o cheiro de suor e mato do outro lado da estrada. Essa foi a grande lição daquela manhã.

Caí na estrada pra voltar às raízes, me perdi na rodovia pra me encontrar em outras vidas. Família tropeira e lenheira, os Pocai eram conhecidos por suas aventuras nos morros do Rio Grande e nos sertões do Paraná muito antes de eu pensar em botar a bota na estrada e escrever as primeiras linhas. Minha família era meio excluída dos jantares da elite gaúcha e dos churrascos dos fazendeiros e deputados de Palmas e Clevelândia:Ao som desse Creedence descendo a Serra da Esperança esperava via que a grande felicidade era ser do meu jeito, considerado louco sem remédio mas também sem tédio.
A Serra da Esperança,
ao fundo o "Chapéu do Bispo".
"Não sou eu, não sou eu Eu não sou filho de um milionário, não Não sou eu, não sou eu Eu não sou nenhum felizardo, não"


Cachoeira, oásis no sertão
E foi enrolando aquele palinha ao som de Creedence que lembrei todos os banhos nu nas cachoeiras, comendo cogumelos azuis, tomando mate com os caboclos no interior desses belos sertões. Como uma pessoa dessa pode ser considerada normal?


O sangue é o passado, mas o futuro é o Apocalipse.

Se antigamente resolvíamos tudo na bala, posteriormente a natureza vai cobrar nossas atitudes péssimas perante ela.


E agora entendo porque do meu jeito debochado ideológicamente falando escrevi e até estive do lado dos estudantes, trabalhadores, sem-terra, indígenas e caboclos...

Mas definir um posicionamento político no sertão não é o suficiente, muito distante daquele CAOS URBANO lembro que ainda falta fugir com essa Águia Negra pelo sertão (moto), enfrentar as 2 bestas, derrubar os 10 reis, recusar a sedução da metetriz, aceitar os 7 flagelos de Deus e por fim resistir em meio a queda da Babilônia. O dragão que possuo dentro de mim já foi domesticado (LEIAM O APOCALIPSE).

Foi nessa estrada do sertão que aprendi que o destino da viagem é a gente quem faz, temos que aceitar o caminho escolhido e não se arrepender. Se um maremoto invadir os sertões, se os prédios desabarem, se as pessoas se perderem, tudo será dor e sofrimento, mas penso que essa é a única forma de darmos um basta nos nossos erros.

Por outro lado, escuto os pássaros sob essas árvores e penso que essa sociedade já deu no saco!
"O sertão vai virar mar"

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sugestiva homenagem

Um exemplo aplicável ao Sertão Paranaense

Por vezes a hipocrisia humana supera-se em grau, número e qualidade. Ela é mais nítida nos monumentos, nomes de ruas, bairros e cidades, em que mártires do acaso e heróis que nunca o foram são imortalizados.

Mas na cidadezinha de São Mateus, no Espírito Santo, uma justa homenagem consta grifada numa placa. Nela, a população expressa seu reconhecimento e gratidão ás prostitutas que preservaram o que hoje é o Sítio Histórico Porto de São Mateus.

sábado, 29 de outubro de 2011

O Apocalipse do Sertão - Primeira Porteira: O sertão abandonado (Diário de bordo - primeira parte)


29 de outubro de 2011 - proximidades do rio Forquilha, entre Renascença e Vitorino...


 "Slow ride, take it easy" (Foghat)

Perto do dia do HALLOWEEN, do dia de todos os santos e dos finados, de um lado a outro da pista o sertão era companhia desta tarde. Os primeiros pingos de chuva começavam a cair na estrada selvagem, procuro um lugar para me abrigar e tirar uma pestana, até que me aparece um parque de diversões abandonado no coração do sertão do Paraná.



"Atávico surungo de chão batido
Xucrismo curtido na tarca do tempo
Refaz invernadas de ânsias perdidas
E encilha a vida no lombo do vento"
(Os Serranos)


Dizem que o último baile foi Drurys
As trepadeiras sobem sobre o ginásio de dança
Em todos os anos de andarilho, de magrela e de moto, nunca havia achado um lugar como aquele. A moto ia derrapando entre o barro e o mato na estrada além da porteira do CTG: Renascendo a Tradição. Abandonado se tornava um espetáculo do silêncio apenas rompido pelo assoviar dos gaviões e o ronco da moto: ÁGUIA NEGRA DO SERTÃO...


Garrafas quebradas, banheiros detonados, as trepadeiras sobre o ginásio de dança me sentia um caubói psicodélico vendo a vitória de uma aliada sobre nós.

A pista de gineteadas, o pavilhão e a capela imóvel... Num suspiro profundo vivo dentro de mim cada ginete dado no lombo dos bois chucros, sinto o sabor da cerveja gelada sendo servida, cada chula disputada entre as varas do salão Até tudo ser interrompido por um tiro, a morte é o fim do bailão...




O último gole...
Entre os valores, a honra e a moral, construções sendo comidas pelo matagal, a natureza toma forma e faz delas meros espetáculos da decadência da aculturação gaúcha na região. Sabemos que apesar de cultuar valores, alguns setores da cultura gaúcha tentaram impregnar o machismo, o conservadorismo e o paternalismo naqueles homens mais chucros que os cavalos que eles montavam.


Valores despedaçados pela atual fase do consumo, ao invés daquele CTG seguir seu lema e renascer, ele está caindo perante o capitalismo, agonizando, morrendo aos poucos pela pós-modernidade do sertão.


De resto são somente fotografias, registros da atual fase de um Apocalipse cultural no sertão do Paraná dominado por anjos e demônios, guris sem amor que só pensar em "foder" e gurias consumistas observando qual é o último lançamento de celular ou que roupa está na moda...

Foi nesse tiroteio do passado com o presente que fui interrompido pelo horizonte que se abria...


"Riders on the storm
Into this house we're born
Into this world we're thrown
Like a dog without a bone
An actor out alone"
(The Doors)


Mãos no guidão, desviando os caminhões que jogavam água para todos os lados, fui espectador de um verdadeiro Apocalipse do sertão sendo anunciado e orquestrado por trombetas, raios e relâmpagos numa intensa batalha entre Deus e o diabo acontecida no céu... Passando pela comunidade do Anjo da Guarda olhei bem dentro dos olhos do Cristo pregado na cruz e agradeci por todo aquele espetáculo ter sido preparado pra mim.

"Prá ser jesus numa moto,
Che guevara dos acostamentos,
Bob dylan numa antiga foto,
Cassius clay antes dos tratamentos,
John lennon de outras estradas,
Easy rider, dúvida e eclipse,
São tomé das letras apagadas,
E arcanjo gabriel sem apocalipse
" (Sá, Rodrix e Guarabira).

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Dicionário do Sertão do Paraná.

por Leandro Czerniaski, o Porteiro de Zona e Roberto Pocai.

Alemoa: loura


Apinchá: jogar


Atorá: cortar


Baita: grande


Bandiar: Ir a algum lugar



Bodiar: descansar, dormir



Bostiá: incomodar


Briquiá: trocar, de mano ou não


Camassada de pau: apanhar


Campiá: procurar


Catrefa: pessoas que não valem nada


Chumaço: conjunto de alguma coisa


Cóça de laço: apanhar, levar uma surra


De vereda: rápido


De revesgueio: de um tal jeito


Diabaria: confusão



Esgualepado: cansado



Estrupiado: Machucado



Fincá: 1. cravar, 2. fazer (por exemplo: "vamô se fincá nisso aí agora)


Fuque: fusca


Garrão: calcanhar


Gole: bebida


Gorpeaço: embriaguez



Incebando: enrolando, fazendo cera


Ingrupi: enganar


Inôzá: amarrar


Intertê: fazer passar o tempo com algo


Inticá: provocar


Intuiado: cheio


Invaretado: nervoso


Japona: jaqueta de nylon


Jóssa: coisa


Judiá: mal tratar


Jumbrelo: pênis



Kakedo: pessoa que não vale nada


Lagartiá: deitar no sol



Lazarento: xingamento


Lograr: 1.enganar 2.se dar bem em um negócio em cima de outra pessoa



Luitá: brigar


Malinducado: mal educado


Mio: milho



Negócio porco: negócio mal-feito onde alguém sai em desvantagem



Oreia-seca: Pessoa sem muito poder, que não convence ninguém, pobre coitado



Paiêro: fumo de palha


Pânca: modo de se portar, por exemplo: panca de motoqueiro (jeito de motoqueiro)

Peral: 1.trajeto ingrime  2.descida


Pereba: doença



Pescociá: olhar para os lados, matar tempo


Pestiado: com alguma doença


Pexada: acidente


Piá pançudo: guri bobo


Podá: ultrapassar, o mesmo que apodá


Potiéca: Meleca



Pozá: dormir em algum lugar


Pruziá: conversar


Quebrá: se dar mal, por exemplo: o gringo lá se quebrô.



Rancho: compra do mês


Relampejando: trovejando


Resbalão: escorregar


Rinso: sabão em pó


Sertão: mato fechado, sem colonização


Sinalêra: semáforo


Táio: corte


Tchuco: bêbado


Trupicá: tropeçar


Tunda de laço: apanhar


Vortiada: passeio


Xana: vagina



Ximia: doce de passar no pão

Xucro: violento, mal-educado

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O caminho das pedras no Sertão do Paraná


Sob a luz da lua mesmo com sol claro, no asfalto quente ou nesse caminho das pedras, pra fugir da chuva e ver o olho do céu se abrir, adubando o solo com o que está morto pra ver o que é vivo nascer. Lembro o quanto acreditávamos ser obrigados a viver em cemitérios, entre pessoas mortas que querem nos corroer com sua ferrugem e as mentiras que inventam... Corria contra o tempo, agora estou a favor dele, agora sonho com histórias de gnomos e pescadores sem cabeça em volta de um fogão de lenha, abri um orifício além daquela cela de prédios e construções, agora vago entre caminhões me jogando fumaça e imensas colheitadeiras me atirando barro no rosto, desviando galizés, porcos chucros e cavalos selvagens na estrada. Sou o equilíbrio e a força que guiam meus olhos como um farol no infinito das rodovias. Sei que a morte continuará me perseguindo mas estou dois passos a frente dela!
(Itapejara d'Oeste, caminho das pedras, 16 de outubro de 2011).

sábado, 15 de outubro de 2011

Os Leite contra os Bento: O pau comeu solto em Campo-Êre (parte I)


“Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus, mesmo, se vier, que venha armado.

Não é a terra que define o sertão, mas o sangue que pinga sobre ela
Conceituar o que seria o sertão se tornaria uma tarefa árdua, porém, procurada por alguns intelectuais como Guimarães Rosa que em 1956 soube expressar com sábias palavras o que é esse pedaço de terra.

Mas a mais firmante definição se dá por Euclides da Cunha que ao invés de definir o que é o sertão preferiu usar a expressão "sertões".

É nessa pluralidade que o sertão ultrapassa fronteiras, nenhuma região pode deter pra si a exclusividade do título de sertão. O sertão sangrento, de tantas Histórias que não são minhas, são de todos, ultrapassa os conflitos entre coronéis e cangaceiros do nordeste brasileiro, vai além das incursões dos bandeirantes em Minas Gerais e voa raso por cima do sossego dos caipiras paulistas chegando ao rincão do sudoeste do Paraná...

1980-1990
E um pouco além dos limites do estado paranaense, no município de Campo-Erê-SC as plantações de milho estavam altas para a colheita. Formada, como todo sertão, por famílias caboclas e de gringos, a sede Campo-Erê via acontecer no pavilhão da igreja os maiores bailões da região.
"Se foi tiro ou cimbronaço, pago pra ver
Deixa que venha no braço pra se entender
Se o facão marca o compasso, deixa correr
Enquanto sobrar um pedaço vamo metê"

(trecho de Baile de Fronteira de Luiz Carlos Borges)

De 30 a 70 cm, fura-buxo de qualqer loco
Chegava no baile 7 'home', todos com a cara que era 'perau' de brabo. Minutos antes estavam no matão de atrás da Igreja escondendo num taquaral 7 facões pra depois do baile:

-Vamo se fincá pro baile, os Leite vão tá lá e o bicho vai pegá pra eles - disse Sebastião Bento, filho mais velho de 6.

- Nego Gato, agora que tu saiu do cadeião, vamo te vingá com o bucho daquele "amardiçoado" vai escorre pelo chão do baile - disse 'véio' Arcides, patriarca que gerou os 6.

Alcides, o Bom. Patriarca dos Bento.
O piazinho da turma, Maurinho, 14 ano, da turma olha de longe uma mocinha que ele poderia "tentiar" (conquistar). Uma, loirinha e magrinha é filha do véio Reco, gringo, era uma onça de brabo e esperto que nem raposa. Logo leva um surdão na orelha de seu irmão Nego Tive:

- Ocê tá aqui pra vingá teu mano rapaiz! Não tá aqui pra tentiá muié, ela é boa má dexe pra depois!

Os olhos úmidos de choro do rapaz fitavam os cabelos louros de sua amada que conhecia da escolinha, enquanto era distanciado dela puxado pelo braço até o balcão onde lhe foi servido um gole de cachaça.

Do outro lado, o sangue também fervia. Os Leite, em 7 também, enxergavam de longe e cochichavam formulando uma estratégia de batalha pra pegarem os 7 negos numa avoada.

Isso tudo foi nos primeiros 5 minutos de baile, o conjunto começa uma vanera e Nego Saci, 18 anos, o mais novo dos Leite, dá um pulo de cima do palco puxando de dentro das cueca uma adaga enquanto o chefe da família Nego Tiziu cai pro meio do pavilhão gritando um urro selvagem que parece ter interrompido o baile todo. Era a ordem de batalha!

A peleia não era só entre as famílias, os seguranças tinham de ser os primeiros a ser rendidos. Ambas as famílias deveriam "erguem no laço" o borracheiro Gumercindo, o peão Valdinei, o mecânico Zaquel e o ministro da igreja João Taborda. 

Mas não foi um minuto todos aqueles que deveriam proteger o baile estavam no chão, nenhum gringo brigava como aqueles que possuíam 4.000 anos de lutas tribais no seu sangue. Descendentes de indígenas que brigavam com quem fosse e pelo que fosse.

E não era somente as duas famílias que iam entrar pro pau naquela noite. Só nesses primeiros momentos, 17 brigas já aconteciam em todo pavilhão. Uns se soqueavam por mulher, outros por bebida, outros por time de futebol... Os motivos eram infindáveis.

Do lado do conjunto tocando, assistia a tudo o maior fazendeiro de Campo-Erê: Laurindo (o sobrenome não posso citar) que ria juntamente com o véio Reco.
Os Bento estavam em total desvantagem já que os Leite estavam armados com pexeiras prontos pra faquear Deus e o mundo naquele rodeio de pau! Conseguiram entrar pois o ministro Taborda não revistou os 7, por que? Tudo a mando do coronel Laurindo...

Enquanto isso, Maurinho voltava pra dentro do baile com os 7 facões jogando-os para seus irmãos que estavam na frente do conjunto que continuava uma vanera.

O baile mesmo não parava, no meio do fudunço, os casais iam bailando escorregando no sangue derramado no chão que logo empossava também de barro, cachaça e suor...

O pau ainda ia comer solto praquelas hora!
_________________________________________________________CONTINUA!