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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Apocalipse no Sertão - A sexta porteira: O xuxuzal sangrento

"Get your motor running
Head out on the highway
Looking for adventure
In whatever comes our way"
("Born to be wild" - Steppenwolf)
 

"pagando de gatão"
momentos antes do acidente
No calçamento dando pau de moto a 60 por hora, até que vejo atravessando pela estrada um tatu, alguns 40 centímetros de casca dura nas suas costas me fizeram muito admirar aquela delicada estrutura, resistente forma de vida entre os avanços das roças de soja e milho junto de seus pesticidas e fertilizantes... Minha reflexão sobre a casca do tatu foi tanta que só a finalizei quando já havia caído num barrau do outro lado da estrada, arrastado 10 metros na pura lama do Sertão do Paraná enquanto a moto havia fincado num xuxuzal - foi o tal xuxuzal bendito que impediu que a moto caísse numa das sangas do rio Veado.

Meu corpo havia tastaviado com a queda, todo embarrado e esfolado no braço esquerdo, tava viraaaaado em praga... Levantei-me para tentar erguer a moto e seguir viagem... Senti meu ombro, do lado da clavícola, mais precisamente o osso da saboneteira. Meti a moto em ponto morto e fui até a casa de um colono pedir socorro, não teve nem conversa, o gringo logo se fincou ligar pra ambulância. Chegando em Pato Branco, o médico me fincou uma faixa e mandou respousar, lembro que naquela noite a dor me impediu de pregar o olho.

Mas não deu outra, no outro dia cedo me boliei atrás da mais conhecida arrumadeira de osso da região: a cabocla Dona Pretinha. Chegando lá, me esperava uma senhora baixinha com as mãos enrrugadas, enquanto terminava de atender uma família necessitada de alimento e roupas. Adentrei sua sala de massagens, logo que enconstou no meu osso, grelhei os zóio imaginando que a dor aumentaria constantemente, entretanto, no primeiro toque de suas sensíveis mãos minha ossada foi entrando no lugar. Cléct, cléct... sua massagem com folhas mentoladas e arnica me fez viajar mais uma vez...

Lembro que me sentia privilegiado, milhares de anos de conhecimentos vindos da terra, dos povos antepassados que viviam em terras ancestrais e que agora podiam ser depositados na minha saboneteira. Pretinha conhecia todas as articulações, nervos, ligações que faziam parte do corpo humano. Sua cura não veio como algo complexo e institucionalizado, mas sim de maneira simples, de quem não saberia também fazer de outra maneira que não fosse pelo querer ajudar. Mais uma vez, em mais um episódio de minha vida me coloquei como mero aprendiz do mundo véio,  pois seja na pequena mas resistente casca de um tatu, num xuxuzal esquecido mas forte na beira de estrada ou nas mãos simples mas sábias de uma cabocla idosa que está aquilo que foge à busca pela perfeição, nos torna mais reais e mais simples de coração.

Nunca valorizei tanto uma sopa de xuxu depois daquele dia!!!

domingo, 9 de dezembro de 2012

Toração de Pau: O acidente do lenheiro de Clevelândia (Arquivo Digital do Sertão do Paraná)

Clevelândia, PR - alguma tarde de 1979

Um acidente marcou aquela tarde e fez com que se reunisse uma "muntuera" de nego. Mas pense num punhado de gente. Um Maveco 6 caneco fez a curva na frente da Serraria no pau! Se fincô pra cima da carroça de Arduíno Pocai, o lenheiro daquelas bandas. O acidente resultou na morte do seu casal de mulas, que precisaram ser sacrificadas pois quebraram as patas dianteiras.






A morte das mulas significou um alerta a família Pocai que sobrevivia do corte de lenha. O pessoal prensou o motorista na xinxa e logo depois ele pagou pelas mulas.





Pareceu o encontro de dois mundos, de um lado o velho com o trabalho rústico e de outro o avanço da mecânica nas mãos de um piazão que dirigia aquela máquina envenenada pelas ruas de Cleveland.



sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A lenda de Ari Pistola - Parte I


 por Robson Pereira

caboclo conhecido por tirar pra lóke
os muléque baitola, se fincô em diversas
aventuras pelo sertão do Paraná
Nós, dessas bandas do sertão paranaense, em geral quando nos referimos a algo que é antigo, ultrapassado, ou apenas muito velho, frequentemente dizemos que é “do tempo do Ari Pistola”. Porém a origem desse misterioso personagem ninguém conhece ao certo. Através de alguns relatos, causos em rodas de chimarrão, fofocas das comadres, histórias de nossos antepassados, conseguimos encontrar indícios de que talvez Ari pistola tenha de fato passado por Pato Branco.

Um andarilho perdido nas estadas empoeiradas do sudoeste paranaense, assim Ari Pistola era visto pelas redondezas. Um “Cowboy fora- da -lei” vivendo em um “Faroeste Caboclo”. Um sujeito magro, quarenta e poucos anos de idade, usava um vasto bigode que de longe parecia uma raposa.

Lá pelas capoeiras de Clevelândia, Ari, como era chamado por seus velhos amigos de empreitada, vivia baleado, por cachaça e por pólvora. Andava mancando devido a um balaço que tomara na perna esquerda, durante uma briga em um velório. Nunca se separava de sua pistola que pendurava no cinto. Trajava roupas velhas e sujas devido aos sofridos trabalhos na roça. Não se considerava um agricultor pois apenas fazia umas empreitadas para comprar munição para a pistola, cachaça pra carcaça e presentes para Carminda, uma moça com quem dava umas “macaquiada” de vez em quando. Carminda morava em Mariópolis, então Ari se sumia para aquelas bandas no fim de semana.

Ari um verdadeiro pistoleiro, “apagava” somente quem merecia, era pobre mas tinha dignidade. Vivia envolvido em brigas nas bodegas da cidade onde nenhuma lei imperava. Seu grande amigo bastião, companheiro de roçadas, lhe vendera a pistola, pela qual Ari tinha tanto zelo, os dois sempre estavam tomando uma cuia de chimarrão em baixo das árvores depois do trabalho. Há boatos de que certa vez Ari e Bastião envolveram-se em uma briga na bodega do velho Vardivino e os dois sozinhos deixaram 2 sem os dentes e 5 baleados, os sujeitos perderam no jogo de baralho e se recusaram a pagar, então Ari e bastião tomaram as devidas providencias. Bastião resolveu ir embora para Santa Catarina, fizeram a última empreitada, roçaram um grande terreno cheio de inço, repartiram 1000 cruzeiros pra cada e cada um seguiu seu rumo, depois é claro do último trago de cachaça quente. Ari Pistola comprou um cavalo velho, se despediu de Carminda e disse que procuraria trabalho em uma Cidade vizinha com nome de Pato Branco.
Ao chegar naquele modesto vilarejo, Ari olhou pra todo lado mas não achou nem um lago muito menos patos, não entendeu nada, Pato Branco???. Só se via mato pra todo lado, Ari acabara de chegar na cidade passando por um trecho onde alguns anos mais tarde seria chamado de “Rasga Diabo”. Desceu um morro dos infernos e encontrou finalmente a civilização. 

Amarrou o cavalo em uma árvore perto do bar e foi entrando. Ao passar pela porta já viu 3 jagunços que o encararam, estes indivíduos eram contratados pela CITLA - Clevelandia Industrial Territorial Ltda - companhia metida a grilar terras dos colonos. Antes de Ari pedir um trago, um deles mandou ele se retirar dizendo que lugar de vadio era carpindo lote. Ari que não levava desaforo pra casa pegou a pistola e baleou o falastrão na testa e pra garantir o bem estar de sua integridade física aproveitou o embalo e mandou pro inferno os outros dois também.

Ari pistola ficara acampado em uma pensão muito conhecida na região, Pensão da Dona Etervina, uma viúva que alugava os quartos do velho casarão para forasteiros e trabalhadores da região. Diziam as más línguas que a tapera era mal assombrada, havia relatos de que na madrugada eram visto vultos no andar superior do estabelecimento. Ari era destemido, mas não descartava a hipótese de haver algo estranho na casa. Depois de algumas horas já estava em seus aposentos descansando, era madrugada, Ari ouviu barulhos estranhos no corredor, resolveu pular do beliche e averiguar o local. Ari pistola abriu a porta, que por sinal era muito velha, fez um barulho estridente devido à ferrugem nas dobradiças. 
 Um velho homem, careca, andava vagarosamente pelo corredor segurando um lampião, já tinha passado pelo quarto onde se encontrava Ari, o velho desceu as escadas em direção ao primeiro andar. Ari pistola resolveu voltar ao descanso, pois amanhã iria em busca de uma roçada pra fazer. Na manhã seguinte Ari tomava seu café preto e fumava seu paieiro e questionou Dona Etervina a respeito do velho que avistara no corredor, Ari ficara espantado quando a velha lhe disse que ele era o único hóspede no hotel, Ari logo falou as caracteristicas do sujeito misterioso. Etervina ficou assustada pois Ari descrevera um idoso que ano passado havia se enforcado no quarto dos fundos do segundo andar. Sem pensar duas vezes Ari subiu as escadas com rapidez, em menos de 15 minutos já estava na estrada com suas trouxas amarradas ao cavalo velho, caiu na estrada para procurar serviço.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Apocalipse do Sertão - Quinta Porteira: O Livro de São Cipriano na mão do Boca de Lavage (Vomitando 666 na geada)

por Tigre e Pocai

"A noite era negra, não adiantava impedir
Pois eu só tinha de ver, alguém estava me observando
Na neblina figuras escuras se moviam e rodopiavam
Seria tudo isso de verdade ou algum tipo de inferno
666 o número da besta
Inferno e fogo foram gerados para serem liberados"
(trecho de "Number of the Beast" de Iron Maiden)
inspirou os Beatles, Jimmy Page do
Led Zeppelin, Ozzy Osboune
e até Raul Seixas com sua magia.
Apesar de ser uma letra de uma conhecida banda de Heavy Metal, essas poderiam muito bem ser as palavras daquele piá de bosta, amaldiçoado e lombriguento da cidade de Mangueirinha. Acostumado a andar com um bodoque no pescoço que usava pra caçar pomba do mato, pés descalços, camiseta encardida. Fez catequese, mááá é claro que foi expulso por descer o barranco da paróquia com um papelão na bunda.

Boca de Lavagem, questionava tudo, as ordens da família, da escola e da igreja. Certa vez, olhou pro professor que dava ordens de decoréba para a turma, os playboyzinhos do fundo davam risadas e caguetaram o piá por ele estar de pé descalço na sala de aula. O professor Genaro moeu os dedo do piá com uma palmatória, a empolgação do mestre foi tanta que chegou a se cagar tudo na frente dos alunos, al mestre passou a ser conhecido entre os alunos como Mestre Churrio de Pato.

O jovem era negado onde ia, certa vez levou um tundão do bodegueiro, véio Adão, porque estava com seu bodoque. "Vô te dá uma camassada de pau sim, piá lazarento, tu tava tacando pedra nas galinha", dizia o véio enquanto descia o reio no lombo do piá, que mais tarde fugiu de onde morava, vila Esperança, chamada popularmente de vila do Amor do Facão, foi pro mato, cortou a cidade até chegar esgualepado no Tijuco Preto.
Meia-noite, lua cheia.

Este curandeiro está "extraindo"
uma enfermidade, introduzida por
magia no corpo do doente.
Morto a pau, ele adormecia até ser acordado assustado com uma bola de fogo carmareando por meio do mato, clarão parecia dia. Acreditavam que essa bola de fogo era o boi-tatá querendo "barranquear" a mula-sem-cabeça.

O xamã Condázinho acreditou que aquele piá era o Curupira, dada as suas características: pés tortos descalços, quase pelado com a roupa que é um fiapo e tudo descabelado virado em praga. O piá morto de fome, foi parar na aldeia do curandeiro que logo ia servir um chá de guavirova pra dá uma "sustança" no garraio. Só que sem querer serviu o chá de chacrona com ariri. O piá foi dormir e já teve umas visão, saiu vomitando as tripa na geada. E o vômito que tinha umas cabeça de pomba branca pelo meio, derreteu o gelo formou três 3 números: 666.

Deitou de olhos fechados na réstia da lua cheia, um frio do diabo, mas ele ali, muito loco, tendo todos os tipos de alucinaçôes. Beleza, até que ele voltou pra dentro da oca com uma larica e logo foi metendo pra dentro uns cogumelos azuis que tavam pendurado defumando num altar que apenas tinha um santo de madeira.

Pronto, feita a cagada. O piá saiu pra fora e deitou num bambuzal... Aaaaah má foi ali mesmo que rolou o bacanal. Boca de Lavagê não conta, guarda pra si sua experiência, mas transou com mais de 120 entidades espirituais falando os mais estranhos palavreados, um verdadeiro Pentecostes do sertão. "Pica na xereca", como diria o véio Arduíno, pau comeu e o piá dali 5 minuto com a Iara e a Pomba Gira ele já nem sabia o que era cabaço.

Voltou pra dentro da oca de novo, meio tongo ainda, mas já tava ligado na situação. Trupico numa raiz de cinamão, saiu tastaviando, quebro uma panela de barro e dentro dela saiu o "Livro da Lei" de Aleister Crowley - a obra havia sido moqueada ali pelo Nego Podre de Loko, um macumbeiro da região que fazia uns brique da "erva do diabo" com Condázinho. Com o nariz estoporado, pingando sangue, Boca de Lavage começou a leitura, e no meio da reflexão do verso "O amor é a lei mas amor sob Vontade", o xamã entra putiado da cara com aquele degladeio na oca e diz: 

-Polaco, tu é forte cara! - Mááá também, o piá sangrando o nariz que nem um porco faqueado debruçado na leitura.

Logo Condázinho elegeu Boca de Lavage como preparador físico do time do Colorado, o time dos Kaingang que estava disputando a 5a. Divisão da Taça Lira e que vinha sofrendo vergonhosas derrotas. A madeireira Dias, que a galera chamava de "Diabão", tinha o time líder da taça e tinha também como empresário o fazendeiro Arcindo que comprava os juízes e mandava os seus jogadores darem pau nos adversários.

Só que os Kaingang não eram fraco, não usavam qualquer tipo de calçado. Pé descalço e o lema era: "se não ganhamo no campo, ganhamo no braço". Gol roubado pro Diabão faz o jogo terminar em 1x0, causando natural revolta entre os Kaingang que se fincaram na bordoada tomando pinga e chegando na voadora pra cima do juiz

O véio Turíbio Dias viu que o pau ia comer pro lado dele, metido a ler o livro de São Cipriano, sacrificar gatos cozinhados vivos dentro da panela e amarrar boca de sapo em seus rituais de magia negra, foi cobrar de Boca de Lavagê a atitude de seus jogadores. O piá soltou sua última profecia da boca de porco

O Livro da Lei
-Tu não é o bãozão, metido a tomá terra dos meus irmãos de sangue, pegar a muié deles a laço no mato?! Passarinho que come pedra sabe o cu que tem.

Boca de Lavagê olhou para o atacante matador do time, Varitão, que estava com facão de "desgaiá" erva-mate, apontou para o véio Dias e disse:

- FAÇA O QUE TU QUERES POIS É TUDO DA LEI!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A última dos Taquarianos: história da gente que nasceu no mato e no mato mora

Numa propriedade da Linha Farroupilha, em Beltrão, o tempo passa numa intensidade diferente dos centros urbanos. Não é o tempo ditado pelos apitos das fábricas, nem aquele definido pelo relógio. Mas sim o regido pela natureza, mãe e madrasta de dona Piedade Oliveira, uma distinta senhora que tendo vivido suas 60 primaveras, ainda tem por costume acordar quando o sol nasce e dormir assim que ele se põe.

Dona Piedade talvez nunca tenha escutado aquela música do João Lopes que diz que “a gente que nasceu no mato no mato tem que morar”; mas é a personificação da letra do “Bicho do Paraná”. Esta senhora conserva ainda os últimos resquícios da vida cabocla, andando descalça pela casa de chão batido, guardando a Semana Santa e produzindo somente “pro gasto”. Ela é a única remanescente dos Taquarianos que ainda cultiva a secular cultura da gente do sertão sudoestino, um habitante intermediário entre o “indígena selvagem” e o “colono civilizado”, segundo as interpretações de gente entendida no assunto.

sábado, 31 de março de 2012

Polaco tocador de guavirova e o Lobisomem do sertão

"Chapado chapadinho, muito louco piradão, 
vai comê bosta de vaca TCHÊ e deixe de ser bundão" (alteração da música do Lobisomem)

Era assim que os gringo viam os "loco", mas é aquela História que Jesus falou: "julgar o outro não define o que ele, mas sim define o que você é".


Era quaresma do Apocalipse 2012, numa comunidade a beira do rio Pato Branco:

Nada mais tranquilo que escutar a própria respiração, sentir o coração bater forte, deitar e poder observar todas as cores e outras que não existem...

Ia andando o Polaco, mascando a ponta do pasto na boca, "sossegado, de boa" era o que ele dizia, seu sentido de vida era uma filosofia oriental, mesmo sem saber o que era isso. Achava que a vida ideal era o sonho, gostava muito de "tirar uma paia" como ele falava, já acordava com "os zóio que é uma bala e detonava a geladeira" não era difícil passar pela casa dele e vê-lo na rede na varanda de sua casa. 


Falavam que ele era daquele jeito por causa da tal de "guavirova" que tocava toda hora, mas o povo é muito "faladô" como o seu pai, tropeiro velho dizia.


Ia ele pra bodega do Véio Eliás, lá ouviu uns causo de um tal leão de circo que rondava a região... Mandou marcar fiado um leite que ele ia tomar com Nescau, o Rinso que a mãe dele mandou comprar e o fumo de corda que seu "véio" gostava de fumar no fim de tarde... 
  
Entre os velho do bar, um já contou que tinha matado uma onça na unha, o outro falou que matou uma jaguatirica com um bodoque, e assim ia. Parecia que no seu Eliás tinha um concurso, um baita concurso encharcado num copo de pinga, histórias que eram exaladas no bafo de paieiro ou no teor de phD do vinho de colônia que evaporava da boca de um véio, o concurso era pra ver QUEM CONTA A HISTÓRIA COM MAIS ATROCIDADES!!!

Pediram pra ele o que que ele achava disso, ele que era um piá novo falou que na noite de lua cheia da semana passada foi dar uma volta no pasto dos bois.


Era 5 pra meia noite, tava lá o Polaco, nem tinha jantado... Era um dia depois de uma chuva que foi de arrancar tatu da toca, mas morrendo de fome que tava o piá olhou pro chão e na BOSTA de um zebu avistou um cogumelo, um jantar típico do sertão:

-Mas por Deus do céu que tinha uns 30 centímetro! E me finquei laricado comê aquele cogumelo do sertão a luz do luar até que cai no gramadão bodiado!


Ficou admirando o luar e as estrelas numa dança astral, viu todas as cores e outras mais, aquela combinação era como uma deusa pra falar a verdade, dançando no breu da noite. Depois de duas horas deitado na relva, levantou e pensou:

-A quantia que eu tava loco! 

Escutou um 'baruio' no mato e se fincou pra ver. Ficou de atrás da árvore "bizoiando". E lá no fundo azul, na noite da floresta, a lua iluminou e a dança, a roda, a festa... E não era só lobisomem, viu chupa-cabra e outros bichos mais: 

-HAHAHA! agora os cara me vêm com essas história que só o lobisome que tá rodando por aí e ainda falando que eu sou boleteiro - gargalhando, disse um sujeito negrinho se equilibrando numa só perna enquanto pitava um cachimbo. 

-Sim, não se ligaram que tamô tudo junto aí pra avisá esses gringo que eles toraram o pau pra tudo lado e tão acabando com a natureza, olha o rio Pato Branco secando, olha os disco-voador rondando o céu - disse um piazote com os pés virados pra trás.

-Já chega! Desisto, a gente não pode nem tomar um banho de rio que já sai no Repórter Cidadão, daqui a pouco vou sair por traficante, fumador de pedra, participante de raves, podre de louco! - respondeu o indignado Lobisomem.

No bodegão, apostou com o Véio Bartolomeu que naquela noite de lua cheia ele ia voltar no matagal pra mostrar pra ele. Marcaram 5 pra meia noite de novo. Bartolomeu era metido a caçador de tesouro, coçando sua barba amarela de paieiro (cigarro de palha) olhou pro chão e se botou comer os cogumelos das bosta de vaca, mas tava com tanta fome que comeu uns oito.


Bartolomeu disputava aqueles gigantes com as larvas, azuis no seu chapéu, macios, logo eram deglutinados... O véio tava tão de boa que revolveu se pelar no mato. Logo depois chegou o Polaco com uma violão vendo aquela cena, virou meia volta e "ponteou" aquela viola e cantou: "Isso é só para loucos, caretas não!"

No outro dia, indo na bodega do Eliás, observava a chuva e esperava o próximo dia de sol, tava lá o piá, Polaco parou na frente da bodega fumando um paieirão de meio metro, daqueles que se tu acende no acendedor do carro acaba a bateria na hora e vai daqui a São Paulo fumando o mesmo(1), fazendo um fumaceral dos dianho.

Entrou na bodega um baita loco, de sobretudo preto, chapéu no rosto, estilo Van-Helsing bateu no balcão do bar e mandou vir uma pinga. Matou aquela pinga e de repente Polaco já lhe perguntou:

-Você nasceu em Pelótas?

-Não, nasci atrás do rio da morte, na encruzilhada em frente do Cemitério da Calvário, das mãos duma parteira que tinha um guia do Exu-caveira na mão esquerda - respondeu o Van-Helsing do sertão .

E então respondeu Polaco após expirar fundo o seu fumo:

- Ah tá, então se você não nasceu em pelótas, então nasceu inteiro.

Passado o tempo, todos que passam por aquele lugar vêem o piá deitado na rede, olhando o céu azul com suas ideias profundas, profundas como água do poço, profundas e calmas.

1-piada de Paulinho Mixaria

sábado, 15 de outubro de 2011

Os Leite contra os Bento: O pau comeu solto em Campo-Êre (parte I)


“Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus, mesmo, se vier, que venha armado.

Não é a terra que define o sertão, mas o sangue que pinga sobre ela
Conceituar o que seria o sertão se tornaria uma tarefa árdua, porém, procurada por alguns intelectuais como Guimarães Rosa que em 1956 soube expressar com sábias palavras o que é esse pedaço de terra.

Mas a mais firmante definição se dá por Euclides da Cunha que ao invés de definir o que é o sertão preferiu usar a expressão "sertões".

É nessa pluralidade que o sertão ultrapassa fronteiras, nenhuma região pode deter pra si a exclusividade do título de sertão. O sertão sangrento, de tantas Histórias que não são minhas, são de todos, ultrapassa os conflitos entre coronéis e cangaceiros do nordeste brasileiro, vai além das incursões dos bandeirantes em Minas Gerais e voa raso por cima do sossego dos caipiras paulistas chegando ao rincão do sudoeste do Paraná...

1980-1990
E um pouco além dos limites do estado paranaense, no município de Campo-Erê-SC as plantações de milho estavam altas para a colheita. Formada, como todo sertão, por famílias caboclas e de gringos, a sede Campo-Erê via acontecer no pavilhão da igreja os maiores bailões da região.
"Se foi tiro ou cimbronaço, pago pra ver
Deixa que venha no braço pra se entender
Se o facão marca o compasso, deixa correr
Enquanto sobrar um pedaço vamo metê"

(trecho de Baile de Fronteira de Luiz Carlos Borges)

De 30 a 70 cm, fura-buxo de qualqer loco
Chegava no baile 7 'home', todos com a cara que era 'perau' de brabo. Minutos antes estavam no matão de atrás da Igreja escondendo num taquaral 7 facões pra depois do baile:

-Vamo se fincá pro baile, os Leite vão tá lá e o bicho vai pegá pra eles - disse Sebastião Bento, filho mais velho de 6.

- Nego Gato, agora que tu saiu do cadeião, vamo te vingá com o bucho daquele "amardiçoado" vai escorre pelo chão do baile - disse 'véio' Arcides, patriarca que gerou os 6.

Alcides, o Bom. Patriarca dos Bento.
O piazinho da turma, Maurinho, 14 ano, da turma olha de longe uma mocinha que ele poderia "tentiar" (conquistar). Uma, loirinha e magrinha é filha do véio Reco, gringo, era uma onça de brabo e esperto que nem raposa. Logo leva um surdão na orelha de seu irmão Nego Tive:

- Ocê tá aqui pra vingá teu mano rapaiz! Não tá aqui pra tentiá muié, ela é boa má dexe pra depois!

Os olhos úmidos de choro do rapaz fitavam os cabelos louros de sua amada que conhecia da escolinha, enquanto era distanciado dela puxado pelo braço até o balcão onde lhe foi servido um gole de cachaça.

Do outro lado, o sangue também fervia. Os Leite, em 7 também, enxergavam de longe e cochichavam formulando uma estratégia de batalha pra pegarem os 7 negos numa avoada.

Isso tudo foi nos primeiros 5 minutos de baile, o conjunto começa uma vanera e Nego Saci, 18 anos, o mais novo dos Leite, dá um pulo de cima do palco puxando de dentro das cueca uma adaga enquanto o chefe da família Nego Tiziu cai pro meio do pavilhão gritando um urro selvagem que parece ter interrompido o baile todo. Era a ordem de batalha!

A peleia não era só entre as famílias, os seguranças tinham de ser os primeiros a ser rendidos. Ambas as famílias deveriam "erguem no laço" o borracheiro Gumercindo, o peão Valdinei, o mecânico Zaquel e o ministro da igreja João Taborda. 

Mas não foi um minuto todos aqueles que deveriam proteger o baile estavam no chão, nenhum gringo brigava como aqueles que possuíam 4.000 anos de lutas tribais no seu sangue. Descendentes de indígenas que brigavam com quem fosse e pelo que fosse.

E não era somente as duas famílias que iam entrar pro pau naquela noite. Só nesses primeiros momentos, 17 brigas já aconteciam em todo pavilhão. Uns se soqueavam por mulher, outros por bebida, outros por time de futebol... Os motivos eram infindáveis.

Do lado do conjunto tocando, assistia a tudo o maior fazendeiro de Campo-Erê: Laurindo (o sobrenome não posso citar) que ria juntamente com o véio Reco.
Os Bento estavam em total desvantagem já que os Leite estavam armados com pexeiras prontos pra faquear Deus e o mundo naquele rodeio de pau! Conseguiram entrar pois o ministro Taborda não revistou os 7, por que? Tudo a mando do coronel Laurindo...

Enquanto isso, Maurinho voltava pra dentro do baile com os 7 facões jogando-os para seus irmãos que estavam na frente do conjunto que continuava uma vanera.

O baile mesmo não parava, no meio do fudunço, os casais iam bailando escorregando no sangue derramado no chão que logo empossava também de barro, cachaça e suor...

O pau ainda ia comer solto praquelas hora!
_________________________________________________________CONTINUA!

domingo, 21 de agosto de 2011

Contos do Rio Ligeiro beirando o c* do mundo - Badanha Senior e a chacina dos Negos Buraios



1947: O rio, sua velocidade descomunal, suas enchentes contínuas e desastrosas numa terra-sem-lei, palco da convivência de gringos e caboclos, desavenças, vinganças eram comuns no dia-a-dia do lugar chamado de "c* do mundo". (inspirado em relatos históricos)

Entre os afluentes do rio Chopim estava o Rio Ligeiro, acostumado a inundar com velocidade Villa Nova (atual Pato Branco), foi assim batizado ou melhor apelidado pelo “Ligeiro”, um paraguaio que ficava na encosta do rio fazendo briques (trocas) com qualquer pelego ou dinheirudo que ali passasse, sua moeda de troca era a erva-mate, vivia na corrida pra trocar tudo pela chamada “erva do diabo” - combustível potencializante e um afrodisíaco natural do sertão.

Logo ao lado da casa e do escritório improvisado do Ligeiro havia uma raia de cavalos onde a machaiada de Villa Nova se reunia numa raia pra ver os cavalos emparelharem enquanto já rolava uma aposta e a pinga ia comendo solta. Enquanto o martelinho (copo vazio de pinga) batia o balcão improvisado, os homens pegavam o chinaredo (mulherada) pra dançar. Mas ali não era apenas ambiente de confraternização, entre apostas rolando, copos vazios e mulheres faltando o tiro comia solto também. Lembro de uma prosa que rolava entre Mané Figurinha que se dizia o maior dono de terras da costa do Chopim, o “home véio” morava no Morro do Sovaco, esse morro que pra descer todo mundo acabava fedendo sovaco de cansado, então imagine o estado do peão.

Junto dele estava Badanha Senior, botas brancas, ficava inconfundível ainda mais fumando cachimbo – seu apelido mais tarde se tornou “Sócio da Souza Cruz”. Figura era sossegado, só pensava em trabalhar, só que era mentiroso e exagerado. Badanha era “bão de desaforo”, tanto que enquanto pagava um vermute com gelo pra duas chinas teve que mexer com seis caboclos do Buraio – lugar onde se produzia carvão no antigo Bairro Godoy, atual Vila Verde -, estavam no fudunço do lado da cancha de bocha tomando um gasosão:

-Oh pé sujo! Vá 'trabaiá' mais 27 ano pra comprar um bota dessa – bradou Badanha Senior.

-Home, pareee loco véio, os piá tão de boa ali – exclamou Figura.


Entre todos, praticamente azuis de tão sujos de carvão, cochichou o menor de todos e mais coceira, Fidelzito, o revolucionário, o crítico, o “inticão”, na chamada “quebrada” onde morava, anos depois representou a “banca” e venceu o inter-bairros de coceira, só coçava mesmo:

-Vamo bochá, vamo bochá?


O caboclo Viriato logo ironizou, retrucando com voz alta:

-'Vamo' se fincar mais pro lado que tá ali duas almofada com perfume de sovaco escorando as puta no barranco – só que falou só pra acender o estopim, ia fazendo exatamente o contrário, chegando mais perto dos dois com sua trupe esfumaçada.


Entre eles estava Nego Tiguera, só acompanhando o bando, um caboclo assustado que procedente do Contestado. Tiguera não gostava de briga, nenhum pouco. Além dele, os cinco queriam ferver o ki-suco, erguer o 'reio' naqueles gringos chamados de “boca aberta”.


-Oh 'rapaiz', vai pra lá que 'nóis tamo' proseando aqui home véio, tá sujando meus garrão com esses pé – Bagé falou pra Nego Wardo, o maior de todos, um caboclo virado em cicatrizes e em marcas de gado pelo corpo, caolho e com a garrafa vazia da gasosa entre os dedos suada e prontinha pra ser decepada nos 'corno' do gringo inticão.

-Comé que é, gringo cara de bagre? - Questionou Nego Juca que foi logo peitando Badanha enquanto era interrompido por Figurinha:

-Bá home, tome um gole do meu gole e fique com a minha 'muié'.

-Sai fora com essa fonte de 'gonorréiagem', não achei meu pinto no chiqueiro pra comer putedo! - exclamou Nego Lázaro.


Enquanto isso, Fidelzito apareceu com uma faca enferrujada e sem cabo, roubada de sua mãe que a usava para sangrar os porcos-do-mato que caçava à unha nos matos do atual Vila Verde. O pequeno coceira foi logo fincando no pulmãozão de Badanha que logo caiu sangrando. Foi aí que o tiro correu solto a partir da cancha de bocha enquanto gringos racistas xingavam os buraios de "negada do diabo".

Nego Tiguera sobreviveu pois se fincou dentro de um buraco de tatu pra fugir do degladeio, a chacina dos buraios não passaria por inquérito porque a pequena vila não possuía polícia. Apareceu o pirata do Chopim, Polaco Sukita, cabeludo e de óculos escuros, jogando os corpos dentro de um barquinho caíco proseava com o chefão Badanha e dizendo-lhe um conselho:

-A lei tá boa, não vai dar cadeia!


sábado, 13 de agosto de 2011

Pau, pau e pau no Rincão Torcido - Parte I


Lá pelos idos de 1947, após a fundação da Colônia Agrícola Nacional General Osório (CANGO) o pessoal de Beltrão ia dum lado pro outro do sertão do Paraná planejando bailões pra integrar a região recém-criada. A gringaiada peleava nessas lidas para poder se divertir, enxer o c* de cachaça e dar tiro pro alto (ARTE: Wellington Mitrut).


Atrasado, desceu corrido de cima do morro do urubu [1], saia de "drento" da patente o Gringo Rebosteio desbravador do sertão do Paraná e um dos fundadores da CANGO. Tava completamente atrasado para o baile que ia eleger a Miss Rincão Torcido... o porque do seu atraso logo conto com mais uns dois dedos de prosa...

Desceu desbarranquendo e torcendo o bigode - como de costume -, pisando nas poças d'água, bostas de égua chucra e tudo que vinha pela frente enquanto ia erguendo ceroula e o seu mijão [2] por cima e se fincava pra subir no trator do Véio Guanxume, véio mais grosso que pino de patrola, que já tava soltando uns "Porco dio, vamo caganeira" na boléia do trator.

Logo na caçamba ia Nego Vardo, um baita bugrão que só falava trabalhava que nem um potro (cavalo) dando coice na cerca, mááá quando o assunto era 'muié' e cachaça o home não ficava nenhum pouco atrás. Era mula do contrabando que vinha pelos rios Sant'Anna, Chopim e Marrecas.

Além dele, o Zandoneno, um cara susse, da paz mesmo, não mexia com ninguém, era bom amarrador de palanque, estrategista de erguer segurar bracatinga que aguentava gaiteiro gordo que nem porco o dia inteiro no palco dos bailões do sertão.

E João do Potreiro, comedor de galinha, pato, marreco, começou com as aves, logo pulou pra porca, ovelha, cabrita mas dizia ele que seu prazer maior era com égua. Acontece que essas História zoofílicas ele não abria assim, guardava pra seu prazer íntimo. Ah não ser quando no seu rancho, dentro de um galpão, as cadelas davam uns uivos altos e todo mundo se ligava da orgia canina que lá rolava.

E logo Rebosteio pintou na banca, pulando a tábua da carroceria e caindo com os dois pés sobre o tabuedo. Mas Gringo Rebosteio não é Rebosteio se não tiver incrementado de um total cheiro fétido e anal de bosta...

5 minutos antes, Rebosteio na patente ia dizendo enquanto sua merda caía no fundo da vala:

-Puta merda! Acabo o sabugo de milho e agora com o que que vô limpa o cu?

Logo seus pensamentos foram interrompidos pelo gritedo do véio pino de patrola:
-Porco dio, vamo caganeira, largue o merdedo aí rápido que tamo atrasado.

Rebosteio passou a mão nas pregas do seu toba e estoletiou a bosta na parede do lado duma imagem duma índia pelada da revista Cruzeiro. Descendo o barranco, não se ligou do estado que estava sua mão e foi logo torcendo o bigode.
Chegando no trator foi logo questionado pelo quietão Zandoneno que nunca falava mas tinha se ligado o que tinha acontecido e logo não perdeu a tirada:

-Véio, como que tu faz pra deixar o bigode lustroso desse jeito?
-É que eu TRÓÇO todo dia - logo Nego Vardo bêbado se despiguelou de dar risada e se mijou todo no chão enquanto aquele trator pulava pelos buracos da estrada, Guanxume ia soltando seus "porco cane" na boléia e a calça vartomundo de João do Potreiro ia se avolumando enquanto observava uma tropa de éguas que ia cruzando uma clareira entre a mata de araucárias, escutando uma gralha negra corveando sobre uma árvore canela, uma família de tatus ia se embucando na toca e a brisa tocava o rosto dos peões de lida que iam atravessar o matagal por três dias para chegar em Clevelândia armar aquele baile...

Esses personagens se tornam meros detalhes adaptados a natureza, a verdadeira História está na bela pintura que era a paisagem do sertão...

Logo um tiro interrompeu o voo a passarada, Guanxume Pino de Patrola com seu trabuco esfumaçando numa mão, um litro de pinga na outra e segurando o volante do trator com seu bagos soltou um grito: "Porcozio: Pau, pau e pau no Rincão Torcido!"

1-Inspirado e retirado de "Cabrilinda" da banda Paraná Blues.
2-O "mijão" era uma calça usada por baixo da bombacha para que ninguém se esfriasse nas veredas do inverno sertanista do sudoeste do Paraná

domingo, 10 de julho de 2011

Na madrugada dos bailões: O gringo Rebosteio - parte I (Personagens do Sertão

"E vai voltar aquele véio aqui, gringo gente boa, dando risada mas sempre com o bigode fedendo MERDA"
(Dono da Bodega falando do assuntado cidadão de Francisco Beltrão)


O que me atrai mesmo na História é que ela sempre se responsabiliza de colocar as coisas em seu devido lugar. No caso do SERTÃO DO SUDOESTE DO PARANÁ não é diferente, muito além daonde Judas perdeu as botas, até os moradores chamam essas terras perto da fronteira com a Argentina de CU DE MUNDO.

Esse "orifício anal" do Paraná chamado também de região sudoeste também possui as suas Histórias. Enfim, pessoal, e foi ali que em 1947 fundou-se a Colônia Agrícola Nacional General Osório (CANGO), que logo empossou como um de seus primeiros presidentes um baita baguá véio que trabalhou para estabelecer as primeiras populações.

Bigode lustroso e comprido, bombacha e guaiaca, lenço azul no pescoço, seu nome a ética não me permite revelar, mas posso revelar seu apelido, todos aqui o chamavam de GRINGO REBOSTEIO, o governador do sertão das araucárias. As colônias que se formavam eram famintas e era esse véio suado, chucro e guapo ao mesmo tempo que se embrenhava nos matões para caçar tatus e lebres (seu tipo grosso mal-educado era o que tornava mais belo e romântico) . Entre a população, tinha os que eram famintos de mulheres, para tanto Rebosteio pegava umas índias a cachorro e tinha também os que eram meio "indecisos", para tanto Rebosteio pegava veados do mato e uns bugres "bem dos forte" que davam no coro.

Os Kaingang, Xetá, Xocleng que aqui residiam tinham o costume do banho diário, já os colonos melhor nem falar... E foram os índios que sofreram na pele as malvadezas do sertão, causadas pelo homem branco. A PEIDOREIRA era um dos piores castigos, esses eram empenhados em outro ramo, em outra parte da vida colonial além do trabalho no lazer chucro e cru d'OS BAILÕES DO REBOSTEIO.

O fudunço comia solto até a matina, rolava de tudo, pinga, vinho e claro uns tiros. Lá por volta de umas hora aparecia o Rebosteio, sempre depois da janta. Certa vez, comeu uma feijoada de porco-do-mato na casa do tal Bugre Nerso, curandeiro e espírita da região. Pintou no baile de botina branca que recém havia comprado na Bodega, seu bailar naquela noite era mirado por todos, ele achava que tava apavorando com as chinas, mas eles não o observavam por isso. Enquanto ele despontava de uma lado a outro do salão aquele porco parecia que remoia nas suas tripas parecia que o bicho tava vivo lá dentro, logo uma peidoreira dos diabo infestou o salão ferozmente.

Numa outra noite, Rebosteio achou que ia dar um peido no salão pensando: "Não vai dá nada". Se enganou de forma traiçoeira, nem no próprio cu podia confiar, sua ceroula afrouxou e pesou, mas o pior é que ele não percebeu nem foi capaz de ver que em suas botas sujas escorria a merda véia que tinha acabado de cagar.

Só deeepois sentiu o cheiro de sua
munição anal, entretanto ele não se ligou que o cheiro vinha dele. Resolveu sair pra fora do bailão, lá claaaaaaaaro que sentiu a fragância também, entrou pro baile sentiu o futum novamente e despinguelou correndo pra frente do baile interrompendo o conjunto que tocava um chamamé gritando:

-CAGARAM NO MUNDO, CAGARAM NO MUNDO, TCHÊ!

domingo, 19 de junho de 2011

O sertão se ilumina (Uma homenagem a João Lopes)

Fim dos 1970', Início dos 1980', Era de Aquarius...

Um gente boa com Luiz Melodia e João Lopes (anos 1980)
Era uma época de grandes bailes ao ar livre, quando surgiu um concurso de conjuntos chamado  FESTIVAL DO MATAGAL. Lá pintou um 'gadeiudo' com uma viola e uma gaita de boca que ia se fincando com os pés nas grimpas caídas no chão, mal sabiam naquelas bandas do seu passado...

E naquele sertão colonizado por "bugres" (Kaingang, Xetá e Guarani) e gringos, virado em pragas, mortes e tristeza, brotou uma rosa jogada direto do coração de um violeiro destemido uns diziam que o cabeludo era porque tava meio fugido de outros lados, outros diziam que era um tal guerrilheiro fugido das 'ditadura'... Não era viado, porque "home que é home" não fica de costas pra ditaDURA, ele aqui chegou encarando de frente, malandro que nem gato do norte, virado em cabelo e sua barba torcida e se embrenhando no capoeirão dando tiro pra tudo os lado. Suas balas eram notas musicais que batiam no peito de todos em formato de paz e amor!

Só que sua luta era diferente, não era sanguinária, nem violento e...

...a rebeldia dos cabeludos se findou quando viram as belezas da natureza e as literaturas de desobediência civil, fizeram meditação, uns companheiros fumavam o tal "fumo estranho" e só falavam de paz e amor, nunca havia ouvido aquelas palavras no sertão, desenssacou e dedilhou uma baita viola juntamente dum gaiteiro... 

Numa matinê de domingo, casais dançavam xote, bugio, forró e até rolou uns negros, polacos e bugres se boliando numa capoeira, maridos abraçavam suas esposas pensando em chegar em casa e ficar na rede olhando a lua cheia depois, olhando nos seus olhos com o intuito de lhes apenas dar prazer. O padre, o bodegueiro, o delegado, todos lá estavam entre mães e seus filhos que brincavam sob a sombra das araucárias... Essas que não mais viam o derramamento do sangue dos inocentes, nem sequer o julgo daquele tal 'capitalismo' que produzira anos antes brigas de foice, facão, ou facadas no bucho... 

Para aquele "gurizote baguá" como chamaram só bastava falar de amor "falar de guerras eu não gosto não". Virou a página do sertão sangrento junto a outros e fez florescer o SERTÃO ILUMINADO.

Dizia o poeta na nova era, seu amigo da sociedade alternativa:

"Somos adeptos dessa lei,
uma lei que nem é desse mundo, ho, ho,
uma lei pra você e pra mim,
me abrace e exerça a lei do amor"

Suas notas se encontraram com palavras bonitas e na voz de Ivo e nas guitarras distorcidas e psicodélicas do sertão! Todas entonadas num belo acorde o fizeram vencer um festival em Curita, capital do Paranazão véio, onde seus versos produziram em seus olhos uma única lágrima chamada saudade:

"Eu não sou gato de Ipanema
Sou bicho do Paraná (...)
Quero voltar pra minha terra
Pro SERTÃO do Paraná"

"Sartou" pra outras bandas com sua companheira de cama, mesa, banho e palco, mas um dia esse bicho volta...