sábado, 31 de março de 2012

Anônimos, armados e rebeldes: A guerrilha dos sertão (Revolta dos posseiros de 1957) - parte I


Francisco Beltrão, madrugada de 05 de outubro de 1957:
"A rebelião" - popular
"Livro Negro da Revolta" -
de Othon Mader





Meia-noite, o silêncio da noite era companhia do Inspetor de Quarteirão “Maringá” que apesar da calmaria do breu noturno costumava dormir com um olho fechado e o outro aberto, esperando a visita de seus companheiros funcionários da Companhia Comercial Paraná - que tinha por objetivo tomar as terras dos colonos no Sudoeste. E eis que esses apareceram, eram eles: “Chapéu de Couro”, “Gauchinho”, “Mato Grosso”, “Lapa”, José Lucas, Walter de Tal

- Acorda aí loco véio! O bicho vai pegá hoje, vamo se boliá pra casa daquele lazarento do Mané Paraguay e depois vamô vê que que sobra do Saldanha. Esse Saldanha é aquele que matô o Farias e o Eugênio quando eles foram arrancá ele das terra, não adianta vai ser expulso ingual - dizia Chapéu de Couro ao acordar Maringá.

-Então vamo, má vamo costeando o rio aqui pra não fazê baruio. Vamo faze u serviço 'di manera' rápida e dá no pé, Foi o Marchetti que mandô ocêis? - respondeu Maringá com seu sotaque do norte do Paraná.

-Vamô, que vai sai um troco bão! Enterra os loco no trigo lá do barrancão, fincá os pau por cima pra prova depois pra recebe o 'dinhero' - respondeu o ganacioso Mato Grosso.

Maringá” acompanhou a tropa costeando o rio Ampére para não fazer barulho, cortando o capim a facão, passando entre os capoeirões, os passos lentos e precisos no barro eram apenas interrompidos pelo coaxar dos sapos no banhado. Logo que chegaram a casa de Paraguay, perceberam que o rancho estava vazio e logo atearam fogo na casa, voltando a atravessar o Ampére em outro trecho se direcionando a casa de João Saldanha.
Saldanha já esperava os jagunços, estava de tocaia na janela e foi fugindo com uma Winchester e um revolver, arrombou a porta dos fundos da casa e zarpou para o mato. Foi perseguido pelos tiros dos seis funcionários da Companhia. 

-Vamô sangra esse fiadaputa, vingá nossos companhero! - cada tiro carregado de pólvora era carregado também pela sede de vingança de Nino Farias e Eugênio de Tal.

Chapéu de Couro”, o líder da jagunçada adentrou a casa acompanhado do tal “Gauchinho”, pegou a mulher de Saldanha quando essa estava para fugir e o filho de nove anos de idade, e logo os matou a tiros pelas costas enquanto Gauchinho matava uma menina de 5 anos.
A mando de “Chapéu de Couro”, “Maringá” adentrou o mato acompanhado do tal Lapa ao encalço de João Saldanha, para ver se esse havia conseguido fugir:

-O lazarento escapô, mas até é bão, assim ele conta pra todo mundo o que que acontece com quem quer bancar o valente!

Um galão de gasolina foi o suficiente para queimar toda a casa. Sentados em um cepo para fora da casa, a jagunçada assistia a casa terminando de pegar fogo enquanto os filhos de Saldanha e sua mulher estavam mortos, jogados num mato do lado da casa. 
Até aquele momento, apenas dois dos filhos haviam sobrevivido, um rapaz havia fugido para o mato enquanto outro era um recém-nascido 

-Esse piá não pára de chora, dê um jeito aí José Lucas.

Esse último por sua vez, jogou a criança pra cima e espetou-a com uma adaga. Aquela cena cruel ficou na memória de Saldanha que avistava tudo escondido num capoeirão. Sua única opção era se embrenhar no mato e esperar amanhecer.

O sol clareava, Saldanha adentrava uma picada no meio do matagal para ir até o bodegueiro Luiz Prolo, as lágrimas lhe tomavam até que secou-as e gritou interrompendo o vôo dos quero-queros: JUSTIÇA!

terça-feira, 27 de março de 2012

Quaresma pode terminar sem visita do Tinhoso ao Sertão; comunidade protesta

Da redação/Sertão News
Restando pouco menos de duas semanas para o fim da Quaresma, a população do Sertão paranaense, no Sudoeste do estado, está preocupada e ansiosa esperando a visita do Inominável, Diabinho, Capeta, Demonho... ou qualquer similar. Tradicional em bailes da região, a ausência do Cão-Tinhoso preocupa até a Associação de Senhoras Católicas, que iniciou uma mobilização pela vinda do dito cujo.

Segundo alega uma das líderes do movimento, o ausência do Satanás no período de Quaresma prejudica a credibilidade das pragas de nonas, comuns nesta época do ano. “Tudo ano a gente avisa a piasada pra não ir nos bailão que vão vê o Arrenegado e sempre aparecia a história dum chifrudo com pata de vaca. Já nesse ano não teve nenhuma feita dessa; tão chamando a gente de mintirosa”, disse dona Diva Gina Santos.

As redes sociais são aliadas nesta luta regional. No Fêicebríque, uma rede de negócios na internet, foi criada uma comunidade que oferece recompensa pra quem conseguir contactar o Rei das Trevas. No grupo intitulado “Campiando o Diacho”, várias postagens dão conta do paradeiro dele e tentam explicar com teorias conspiratórias os motivos do Coisa Ruim não vir ao Sertão.
Muitos pré-candidatos, na ânsia de angariar eleitores, já adotaram em seus discursos a promessa de, caso eleitos, trazer o Maligno à região, como fez o deputado-caudilho Ernesto Cabeza de Bombril numa recente inauguração de uma lombada.
João Vaneirinha tietando o
djãnho véio numa das
suas visitas em 1990


Movimento nos fura-bucho cai 18%
Os reflexos do não aparecimento do Satanás também são sentidos na economia local. Nos fura-bucho e bailes do interior, por exemplo, o movimento caiu em média 18% com relação ao mesmo período do ano passado. João Vaneirinha, proprietário de um clube de dança (e quebra-pau) no Rincão da Capetinga, relembra os saudosos tempos em que, muitas vezes, a presença do Guampudo era a atração principal da noite. “Tinha gente que se boliava da capital aqui só pra ver o loco véio. Faziam fila mais longa que lumbriga de piá pançudo pra tirar um retrato com cabôco”, afirma ele, olhando para uma foto tirada com o Coisa Ruim em fins da década de 90.

Boicote pode gerar crise diplomática
Se para alguns a presença do Tinhoso é mera vaidade, para outros ela é de fundamental importância para a manutenção da ordem, do progresso e do laço no lombo dos loco, política adotada pelo governador-coronel-playbói Betinho Peleja. O professor universitário Vitor Hugo Tocagaita, autor do livro Sertão: ame-o ou deixe-o, afirma que se a visita não acontecer, colocará em xeque as relações diplomáticas com o Inferno. “Mantemos uma balança comercial desfavorável, importando muito mais gente pra lá que exportando. Caso a visita não aconteça, pode haver boicotes nestas relações”, disse.

Turnê internacional atrapalha visita, diz assessoria
Na última semana o blog de fofoca Estrelas Subterrâneas publicou uma foto enviada por um fã que afirma ter visto o coisa ruim em uma festa de peão com gel no cabelo e calça atolada. As suspeitas são de que ele esteja aderindo a tendência do sertanejo universitário, mais lucrativa e em alta no momento. A assessoria de imprensa do Capeta negou o fato e também expediu nota, afirmando não haver data agendada para a visita ao Sudoeste. Segundo justificou, uma turnê internacional impede sua presença no sertão: “infelizmente, só deus é onipresente”, diz trecho da publicação.

Enquanto os dias passam e nenhuma informação favorável procede, a população local alimenta a esperança de receber a visita ainda neste ano. Para muito além de seu estrelismo infernal, a visita do Belzebu alimenta sonhos e une um povo que volta e meia se atraca na facada, tiro, pedrada, tijolada (o que tiver ao alcance) ... Mas pelo menos em um ponto polacos e gringos, patrões e empregados, maridos e esposas não divergem: todos querem ver o Demonho antes do fim da Quaresma.

sábado, 17 de março de 2012

SERTÃO NEWS: Conferência do Partido dos Sociólogos virado no diabo ontém na capital do Sertão do Paraná.

Capital do Sertão, 17 de março de 2012

Debaixo de um capoeirão,
achamos um ninho de tucanos no sertão

Foguetório e gritaria marcaram o entreveiro do Convenção Partido dos Sociólogo do Brasil na Capital do Sertão Paranaense. Esteve presente a mulher do governador "Piá de Prédio" que chamou a mesa o prefeito "Boi Gordo" e o seu amigo deputado "Cara de Viado", ambos foram vaiados pela tucanada e por pouco não saiu ovo e tomate podres na negrada neo-brizolista.

No discurso o tom de ameça da muié que mais parecia esposa dum coronel bago-roxo saiu nesse tom: "É isso aí diabedo! Esse ano nós vamo pras cabeça! E tu 'Cara de Viado' pode até se lançar candidato a prefeito, mas já saiba que caso se eleja nessa cidade de barranco não vai poder contar com 1 pila do governo do meu maridão". E com isso a Convenção fincou de candidato a prefeito o mega-ultra-empresário horti-fruti-granjeiro-jodador-de-merda-no-rio-Chopim "Playboy do Camaro".

SERTÃO NEWS, em dialeto gringuês pra ficar mais claro pra todo mundo que nem água de poço.

quarta-feira, 7 de março de 2012

As mina pira no dialeto sudoestino

postado originalmente por Itape Depressiva

Que o nosso Dialeto e um dos mais estranhos da face da terra isso não é novidade, o fato é que somos diferenciados culturalmente do restante da humanidade, isso também pode ser considerado um motivo de orgulho pra gente, por que de alguma forma as nossas particularidades não são encontradas facilmente por ai, e a humanidade tem muito o que aprender com nossa cultura local. É nesse espírito que apr...esento pra vcs mais uma pérola musical que vai revolucionar tudo o que vc tinha visto até esse momento.

Ai se eu te pego(versão Itapejarense)
Sábado, no bailão, a piazada começou a prozia.
E cruzou a menina mais ajeitada,
Tomei coragem e comecei a tentiar.
Nossa, nossa assim você me acaba,
Ai se eu te agarro, Ai ai se eu te agarro,
Delícia, delícia....(Bis 32 vezes)
#As mina Pira no Dialeto Itapejarense.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O Diabo de Capanema

Certa feita, um carroceiro gritava com seus bois, fatigados pela carga excessiva de toras de peroba. Era ajudado por seu filho, que chicoteava grosseiramente os animais, não avaliando que era impossível os bois saírem do local, um lamacento buraco. Os bois respiravam aos sufocos, largando uma saliva espumosa pela boca, enquanto o homem esbravejava.


Aos urros e berros ecoantes, com blasfêmias de todas as espécies e contra as divindades, os animais se contorciam de um lado para outro, sem o efeito esperado que o carro pudesse ser removido dali. O homem recorreu a todos os santos e demônios; por fim, gritou: “talvez quem pudesse nos ajudar, só mesmo o diabo!”. E o seu santo, naquela hora, passou a ser o demônio, já que não resolveram nada os demais santificados. Que surgisse, então, o demônio. Para resolver uma situação que se encontrava sem remédio.

Repentinamente, ouviu-se um barulho, com grande claridade e um pouco de fumaça. Lá estava “ele” sobre as toras amarradas na carroça atolada, lançava pela boca e olhos uma lasciva chama avermelhada e observava o carroceiro atônito. O carroceiro pôs suas mãos no bolso à procura de um rosário e encontrou somente fumo de rolo. Tentou se lembrar dos seus santos e recitava até orações nunca ouvidas! Mas nada resolvera.

Ele, o diabo, continuava ali, sentado e indiferente ao homem que tentava agora se lembrar dos santos e dos desafios que fizera anteriormente contra a divina providência. Enquanto isso, como por encanto os bois lentamente saíram da lama e caminhavam com o peso, como que ajudados por alguma força diferente, invisível.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O Apocalipse do Sertão - Quarta Porteira: Resistência (Diário de bordo - quarta parte)

Ponta Grossa, 17 de junho de 2008


-"Me perdoe, grande latifundiário da cidade se minha presença lhe agride tanto".

Em meio a chuva ele gritava isso a um velho que estava de botas fumando charuto e tendo os sapatos engraxados por um guri. E sua ironia indignava mais ainda aquele "senhor de terras" dos Campos Gerais que parecia ter se arrependido de ter pronunciado aquelas duas palavras: "cabeludo viado".

Camiseta xadrez, cabelo comprido, calça rasgada... Meses foram o suficiente para aquele rapaz ingênuo do interior do Paraná  enfrentar os mandos e desmandos da "cidade grande".


Se adaptar? Juntamente de seu fiel companheiro Tenor que cantava ópera pelas ruas da cidade e falava italiano ele não se sentia capaz disso, mas sim de interferir e transformar! 

O sistema o abominava, os valores estavam mudados e toda simplicidade da vida foi trocada por um jogo de interesses. Hoje, escutando o barulho da água que cai lá do alto, tudo passa a fazer sentido.



Coronel Vivida - 17 de dezembro de 2011, 16:07
tocando "Bicho do Paraná"
no Vargas
Eu o vejo! Antes desse grande fim, da catástrofe anunciada e prevista alguém viveu dando a outra face e reencarna carregado de feridas e chagas na alma.


Sua dor é tão grande que ele apenas tem uma alternativa. Fugir!


Longe dos "grandes" centros, com "grandes" pessoas e suas "grandes" importâncias.

Um cara como qualquer outro, mas que ao invés de abrir sorrisos pra qualquer um mandava tudo "se foder" e fazia cara feia em público.


Os matos eram explorados e ali ele dizia achar um novo sentido para o seu EU.

Uma viagem psicológica e psicotrópica. Ele buscava o que chamava de "uma pira verdadeira" e procurava refletir isso no estilo de música e na sua forma de se vestir. 

E, de repente, foi alvo de indignação, pois mesmo querendo pegar as cavalas do sertanejo universitário não conseguia se aproximar delas pagando "gole" e botando "banca", ele buscava nas mulheres o sentimento.

Odiava roupas novas, pois se apegava a suas vestes antigas e até mesmo rasgadas.

Percebeu que a forma de pensamento dominante na sua época era enrrustida de dos preconceitos enlatados de 30 anos atrás, do desenvolvimento tecno-facista. Pois via os miseráveis defendendo aqueles que geravam sua miséria

Fugia, simplesmente isso, sendo um pequeno burguês aproveitava o que o mínimo que o sistema lhe oferecia, não conseguia servir ao capital e em alguns momentos se sentiu incapaz de arrumar companhia por conta disso.

Um dia depois de um bico numa cachoeira soltou expotaneamente um berro: EU SOU UM PIÁ!

Mas ele não é nosso herói, é talvez um louco, um pseudo-esquerdista metidpo a revoltado, a maior fraude comunista-hippie-beatnik esfacelada e materializada no corpo de um pequeno-burguês vestido que queria ter nascido mendigo. 

Seu fim se deu num campo de flores, durante a primavera. Não foi ele quem criou a contra-mola que traria primavera segurada entre os seus dentes!


Sepultou os seus sentimentos negativos em meio a toda destruição daquele Apocalipse, ele renascia.


Intoxicado pela doçura da vida que era o néctas daquela estação. Ele sempre volta enxer o saco com suas "baboseiras ideológicas", mostrando que foi o padeiro que vendeu os melhores sonhos, foi o bodegueiro que não cobrava fiado, foi nadador de rios e cachoeiras, foi admirador dos beija-flores e borboletas, foi o violeiro nos bares dos velhos boêmios, foi proseador e chimarrãozeador entre as tiazonas velhas, foi o mais servil amante e fui sobretudo o maior cozinheiro de Genghis-Khan dum acampamento qualquer que não lembro onde foi...

O profeta dessa Apocalipse não era um monge budista capacitado por seu interior. No ronco dos motores sua meditação era o Rock n'Roll que bradava acompanhando o ritmo dos rios e a queda das cachoeiras que caíam como suas lágrimas ao produzir essas palavras.

Ele era a RESISTÊNCIA e o SERTÃO era seu aconchego, já que todas as vezes que voltava pra cidade era chamado de BICHO DO MATO.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Branca Leone, o gringo que comeu a Gema sem quebrar o ovo

Era pra ser mais um dia normal e tranquilo na bodega da Linha São Paulo, no último ano da década de 60. Mas sabem bem os leitores que tal estabelecimento, para fazer jus ao seu nome, necessita ser o palco de algumas brigas banalizadas, apostas fúteis e mentiras bem aplicadas. E acrescente-se: escândalos sexuais-comunitários também.

Lá pelo décimo trago, um grupo de gringos realizava o concurso de eucentrismo, a máxima representação dessa coisa que a espécie humana tem em ressaltar as qualidades e esconder os defeitos. Um dizia ter colhido o melhor feijão da região, outro ter carneado um leitão que deu mais de 100kg de banha, outro lá dizia ter o cavalo mais rápido, ... Mas era sabido que a veracidade habitava as palavras do João do Poço, enquanto este falava das habilidades e vitórias de seu galo de rinha. Batizado de Jânio Quadros, em razão do semelhante hábito ao do ex-presidente em tomar uma de vez em quando e pelo andar torto, o animal era conhecido em todo o sertão pela boa habilidade em ser mau. Mais feio que indigestão de torresmo, na arena o galo índio muía os adversários.

Foi este raro espécime que despertou a cobiça de Angelin Brancalione (mas chama de Branca Leone que o pessoal conhece mais). O gringo ouvia a conversa no bar e propostiáva o dono do galo com vistas a fechar uma negociação.
- Te dou uma novilha manca.
- Não.
- Uma fublé enferrujada.
- Menos ainda, imundiçia.
- Trêis borsa de feijão véio?
- Do meu galo não me desfaço tão fácil – dizia João do Poço, mais duro de dobrar que salame da colônia.

Mas Branca Leone não era de fácil desistência. Podia ser monte no bríque, mas era ligeiro na malandragem. Começou com a fala mansa e logo foi atraindo a atenção dos presentes dizendo ser capaz de algo até então impossível para a humanidade eurosudoestina: comer a gema sem quebrar o ovo. De pronto começaram as dúvidas e Branca Leone agora é quem se fazia de difícil. Todos imploravam para ver o feitio do gringo, mas ele só o faria em troca do galo, que após muita insistência foi objeto da aposta. Sua habilidade quase que transcendental seria comprovada na semana seguinte, conforme combinado, no mesmo recinto, no mesmo horário.

Dito e feito, na quarta badalada do relógio apareceram todos à bodega. Era evento maior que a festa do padroeiro. Até o padre Moisés e o coronel Pacheco Lustosa se achegaram a garantiram um lugarzinho no estabelecimento, no dia que já contabilizava a maior venda de pinga com mentruz da história da Linha São Paulo, até mais que quando o time local foi campeão do torneio municipal, num jogo conhecido por “Massacre do Varzeano”: foram dois mortos, cinco elijados e um capado. Aliás, o time só ganhou por ter tirado mais adversários do campo na base do tiro, da faconada e do grito.

Com poucos minutos de atraso e já alguns tragos na cabeça, surge na porta da bodega a estrela principal do dia e figura de idolatria entre seus contemporâneos locais. Alguns espectadores passaram mal em razão da alta taxa de adrenalina, outros tiveram crise de asma e teve uns que caiam de beudo mesmo. Branca Leone cumprimenta com um típico “taaaarddeeeeeee”, dá dois passos à frente, verifica que não há ninguém na retaguarda, arreia a calça com guaiaca e tudo, põe uma mão na cintura, e diz, batendo com a outra no saco:
- Tá qui, ó. Não quebrei nenhum dos meus dois ovo. Se quiserem confirmá podem até vim passá a mão, mas sem viadage.

A multidão, atônita e meio sem entender aquele ato de pudor, não manifestou nenhuma reação. Apenas consentiu. Não obtendo resposta alguma contestando a veracidade de seu feito, Branca Leone ergueu a calça, assegurou o fechamento do zip, pegou o galo Jânio, que por direito agora lhe pertencia, e foi embora. Somente dias depois é que, pela boca do bodegueiro, se espalhou a notícia de que Branca Leone havia mantido relações sexuais com uma tal de Gema Lustosa, moça filha do coronel Pacheco, e não sofreu nenhuma avaria nos testículos. Cumpriu, assim, sua palavra de que comia a Gema sem quebrar os ovos.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O Apocalipse no sertão: Terceira porteira: A Paz (Diário de bordo - terceira parte)

Paz, 16 de novembro de 2011, 16:04

E eis que escrevendo sobre a própria vida, parei na comunidade de Paz para escutar a História dos outros. Agora transcrevo o que ouvi.


Uma vez uma mulher possuía uma doença inexplicável e extremamente depressiva

acordava no meio da noite e chorava sem parar. Seu filho de 12 anos a pedia:

-'Manhê', por que tu chora? Não chora mãe!

Bodega do Seu Bastião
onde me foi relatada essa História


Sem resposta, a velha polaca fazedoras de cucas e doces, dona de uma padaria caseira continuava seu pranto interminável. Rogou a todas as Nossas Senhoras que conhecia pedindo que aquele sofrimento de anos se findasse, desde a de Fátima, passando pela virgem Aparecida, do Perpétuo Socorro e até Nossa Senhora da Cabeça. Pediu também para São Braz, São Bartolomeu e até Santo Expedito. Suas preces não foram atendidas. 

O chamado "Papai Noel"
da Paz contando um causo
Numa noite quando a chuva caía violentamente sem cessar entre "relampejos" e trovões, Dona Gertulina sentia imensas dores no pulmão que lhe faziam sofrer mais ainda, não aguentava nem com as pernas até que se ajoelhou e do nada pediu a São Jorge, o último santo conhecido, o 13o. santo chamado por sua voz.

E disse:

-Jorge (tinha o costume de chamar os "santos" com afinidade), ocê que é chamado guerreiro, que cativou o dragão do mal e o tornou bom, me faz curada, me mostra a cura nem que seja por um andarilho desses que vem aqui pedir 'as coisa'. 


São Jorge da Capadócia
representado na Igreja
Ucraniana Oriental
Após aquele pedido, a chuva parou. E ela se convenceu de que poderia dormir. Caiu na cama, até que no outro dia, a tarde como acontecia frequentemente apareceu um andarilho desconhecido com os cabelos que pareciam não serem lavados há tempos, grandes mechas que diziam parecer um novelo de lã de ovelha. Ele ali parou e pediu um copo d'água e logo também lhe foi oferecido o cepo pra sentar. O homem cansado pediu um "pôso" para se abrigar da chuva e Gertulina não recusou. Na janta lhe serviu uma sopa quente não sem antes agradecer pelas vendas na padaria, pelas amizades na comunidade e até pela chuva que caía e daria uma boa colheita naquele ano.


O andarilho após dizer amém olhou para a mulher e perguntou: 


- Dona, tu parece tá sofrida.


Sua resposta foi uma lágrima escorrida que parecia queimar-lhe o rosto. Ele logou lhe falou:


-O que tu 'teim' de 'fazê' é um remédio que eu 'vô' te ensina. Tu pega uma folha de 'loro' e corta um pedacinho de cipó-sumo daqueles que tem ali 'atrais' da casa. Ferve e toma tudo num golaço que meio que desça te queimando os 'purmão'.

Gertulina anotou a receita da xaropada num papel amarelado. Na manhã seguinte, o andarilho se despediu e agradeceu a comida, o "pôso", e a comida até se findar pelo horizonte para nunca mais ser visto.


Seu João, o filho de Gertulina segurando
um pedaço de cipó-sumo que dizem que
afina o sangue e combate a hipertensão
A padeira ao tomar a xaropada caiu dura no chão e horas depois de um sono profundo acordou com seu filho lhe segurando a mão e seu marido cerreiro que estava na estrada há mais de 20 dias a observando da porta. 
A cerraria de Paz

Abraçou ambos e agradeceu a Deus sorrindo para nunca mais chorar. Ninguém sabe nem sequer o nome daquele andarilho, mas eu tenho por certeza que era Jorge.


Agora eu descobri que a Paz existe, ele está dentro dos nossos corações e nas histórias que carregamos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Apocalipse no Sertão - Segunda Porteira: Êxodo da Babilônia - Reserva de Mangueirinha e Serra da Esperança (Diário de Bordo - segunda parte)

Nascer do sol na Reserva de Mangueirinha
"E vou seguindo
Caminhando, me espanlhando
Levando poeira no meu coração


Eu vou, eu vou
Sem olhar pra trás" (...)






                                                                                                              





"Eu quero ir embora antes de parar" (João Lopes e Blindagem)

12 de novembro de 2011
05:37

A História volta a ser uma viagem, violão nas costas, revistas zines na mala...

Professor, universitário? De forma alguma, o personagem que vos fala transmutou-se num maluco de BR, sobre duas rodas e sob uma lua, um micróbio se espalhando por esse corredor que é o Paraná ainda de madrugada... O dia viria me recepcionar somente mais tarde.

"Eu, eu ando de passo leve pra não acordar o dia

Sou da noite a companheira mais fiel qu'ela queria" (Raul Seixas) 

A lua foi companheira do início da viagem cósmica, minha fuga do sertão até a cidade civilizada. Sobre uma moto tudo é passageiro, Pato Branco, Coronel Vivida, Mangueirinha...

A primeira parada foi na companhia do sol, eu amanhecia perante a maior reserva de Araucárias do mundo, 17.308,07 km quasdrados de mata preservada pelos Kaingang e Guarani que ali vivem.

A lágrima que desceu foi um abraço na paisagem e um desejo que a força das lutas indígenas não cessem. Mandei boas vibrações ao cacique Valdir e logo relembrei os ensinamentos do BAGHAVAD-GITÃ e o calor daquele choro representou o grande ensinamento de Krishna,  o espírito da História andava agora na contramão (LEIAM O BHAGAVAD-GITÃ).


Do outro lado da História vejo um velho com uma enxada e um cabelo com dreads naturais do sertão, sentia o cheiro de suor e mato do outro lado da estrada. Essa foi a grande lição daquela manhã.

Caí na estrada pra voltar às raízes, me perdi na rodovia pra me encontrar em outras vidas. Família tropeira e lenheira, os Pocai eram conhecidos por suas aventuras nos morros do Rio Grande e nos sertões do Paraná muito antes de eu pensar em botar a bota na estrada e escrever as primeiras linhas. Minha família era meio excluída dos jantares da elite gaúcha e dos churrascos dos fazendeiros e deputados de Palmas e Clevelândia:Ao som desse Creedence descendo a Serra da Esperança esperava via que a grande felicidade era ser do meu jeito, considerado louco sem remédio mas também sem tédio.
A Serra da Esperança,
ao fundo o "Chapéu do Bispo".
"Não sou eu, não sou eu Eu não sou filho de um milionário, não Não sou eu, não sou eu Eu não sou nenhum felizardo, não"


Cachoeira, oásis no sertão
E foi enrolando aquele palinha ao som de Creedence que lembrei todos os banhos nu nas cachoeiras, comendo cogumelos azuis, tomando mate com os caboclos no interior desses belos sertões. Como uma pessoa dessa pode ser considerada normal?


O sangue é o passado, mas o futuro é o Apocalipse.

Se antigamente resolvíamos tudo na bala, posteriormente a natureza vai cobrar nossas atitudes péssimas perante ela.


E agora entendo porque do meu jeito debochado ideológicamente falando escrevi e até estive do lado dos estudantes, trabalhadores, sem-terra, indígenas e caboclos...

Mas definir um posicionamento político no sertão não é o suficiente, muito distante daquele CAOS URBANO lembro que ainda falta fugir com essa Águia Negra pelo sertão (moto), enfrentar as 2 bestas, derrubar os 10 reis, recusar a sedução da metetriz, aceitar os 7 flagelos de Deus e por fim resistir em meio a queda da Babilônia. O dragão que possuo dentro de mim já foi domesticado (LEIAM O APOCALIPSE).

Foi nessa estrada do sertão que aprendi que o destino da viagem é a gente quem faz, temos que aceitar o caminho escolhido e não se arrepender. Se um maremoto invadir os sertões, se os prédios desabarem, se as pessoas se perderem, tudo será dor e sofrimento, mas penso que essa é a única forma de darmos um basta nos nossos erros.

Por outro lado, escuto os pássaros sob essas árvores e penso que essa sociedade já deu no saco!
"O sertão vai virar mar"

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Sugestiva homenagem

Um exemplo aplicável ao Sertão Paranaense

Por vezes a hipocrisia humana supera-se em grau, número e qualidade. Ela é mais nítida nos monumentos, nomes de ruas, bairros e cidades, em que mártires do acaso e heróis que nunca o foram são imortalizados.

Mas na cidadezinha de São Mateus, no Espírito Santo, uma justa homenagem consta grifada numa placa. Nela, a população expressa seu reconhecimento e gratidão ás prostitutas que preservaram o que hoje é o Sítio Histórico Porto de São Mateus.