sábado, 29 de outubro de 2011

O Apocalipse do Sertão - Primeira Porteira: O sertão abandonado (Diário de bordo - primeira parte)


29 de outubro de 2011 - proximidades do rio Forquilha, entre Renascença e Vitorino...


 "Slow ride, take it easy" (Foghat)

Perto do dia do HALLOWEEN, do dia de todos os santos e dos finados, de um lado a outro da pista o sertão era companhia desta tarde. Os primeiros pingos de chuva começavam a cair na estrada selvagem, procuro um lugar para me abrigar e tirar uma pestana, até que me aparece um parque de diversões abandonado no coração do sertão do Paraná.



"Atávico surungo de chão batido
Xucrismo curtido na tarca do tempo
Refaz invernadas de ânsias perdidas
E encilha a vida no lombo do vento"
(Os Serranos)


Dizem que o último baile foi Drurys
As trepadeiras sobem sobre o ginásio de dança
Em todos os anos de andarilho, de magrela e de moto, nunca havia achado um lugar como aquele. A moto ia derrapando entre o barro e o mato na estrada além da porteira do CTG: Renascendo a Tradição. Abandonado se tornava um espetáculo do silêncio apenas rompido pelo assoviar dos gaviões e o ronco da moto: ÁGUIA NEGRA DO SERTÃO...


Garrafas quebradas, banheiros detonados, as trepadeiras sobre o ginásio de dança me sentia um caubói psicodélico vendo a vitória de uma aliada sobre nós.

A pista de gineteadas, o pavilhão e a capela imóvel... Num suspiro profundo vivo dentro de mim cada ginete dado no lombo dos bois chucros, sinto o sabor da cerveja gelada sendo servida, cada chula disputada entre as varas do salão Até tudo ser interrompido por um tiro, a morte é o fim do bailão...




O último gole...
Entre os valores, a honra e a moral, construções sendo comidas pelo matagal, a natureza toma forma e faz delas meros espetáculos da decadência da aculturação gaúcha na região. Sabemos que apesar de cultuar valores, alguns setores da cultura gaúcha tentaram impregnar o machismo, o conservadorismo e o paternalismo naqueles homens mais chucros que os cavalos que eles montavam.


Valores despedaçados pela atual fase do consumo, ao invés daquele CTG seguir seu lema e renascer, ele está caindo perante o capitalismo, agonizando, morrendo aos poucos pela pós-modernidade do sertão.


De resto são somente fotografias, registros da atual fase de um Apocalipse cultural no sertão do Paraná dominado por anjos e demônios, guris sem amor que só pensar em "foder" e gurias consumistas observando qual é o último lançamento de celular ou que roupa está na moda...

Foi nesse tiroteio do passado com o presente que fui interrompido pelo horizonte que se abria...


"Riders on the storm
Into this house we're born
Into this world we're thrown
Like a dog without a bone
An actor out alone"
(The Doors)


Mãos no guidão, desviando os caminhões que jogavam água para todos os lados, fui espectador de um verdadeiro Apocalipse do sertão sendo anunciado e orquestrado por trombetas, raios e relâmpagos numa intensa batalha entre Deus e o diabo acontecida no céu... Passando pela comunidade do Anjo da Guarda olhei bem dentro dos olhos do Cristo pregado na cruz e agradeci por todo aquele espetáculo ter sido preparado pra mim.

"Prá ser jesus numa moto,
Che guevara dos acostamentos,
Bob dylan numa antiga foto,
Cassius clay antes dos tratamentos,
John lennon de outras estradas,
Easy rider, dúvida e eclipse,
São tomé das letras apagadas,
E arcanjo gabriel sem apocalipse
" (Sá, Rodrix e Guarabira).

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Dicionário do Sertão do Paraná.

por Leandro Czerniaski, o Porteiro de Zona e Roberto Pocai.

Alemoa: loura


Apinchá: jogar


Atorá: cortar


Baita: grande


Bandiar: Ir a algum lugar



Bodiar: descansar, dormir



Bostiá: incomodar


Briquiá: trocar, de mano ou não


Camassada de pau: apanhar


Campiá: procurar


Catrefa: pessoas que não valem nada


Chumaço: conjunto de alguma coisa


Cóça de laço: apanhar, levar uma surra


De vereda: rápido


De revesgueio: de um tal jeito


Diabaria: confusão



Esgualepado: cansado



Estrupiado: Machucado



Fincá: 1. cravar, 2. fazer (por exemplo: "vamô se fincá nisso aí agora)


Fuque: fusca


Garrão: calcanhar


Gole: bebida


Gorpeaço: embriaguez



Incebando: enrolando, fazendo cera


Ingrupi: enganar


Inôzá: amarrar


Intertê: fazer passar o tempo com algo


Inticá: provocar


Intuiado: cheio


Invaretado: nervoso


Japona: jaqueta de nylon


Jóssa: coisa


Judiá: mal tratar


Jumbrelo: pênis



Kakedo: pessoa que não vale nada


Lagartiá: deitar no sol



Lazarento: xingamento


Lograr: 1.enganar 2.se dar bem em um negócio em cima de outra pessoa



Luitá: brigar


Malinducado: mal educado


Mio: milho



Negócio porco: negócio mal-feito onde alguém sai em desvantagem



Oreia-seca: Pessoa sem muito poder, que não convence ninguém, pobre coitado



Paiêro: fumo de palha


Pânca: modo de se portar, por exemplo: panca de motoqueiro (jeito de motoqueiro)

Peral: 1.trajeto ingrime  2.descida


Pereba: doença



Pescociá: olhar para os lados, matar tempo


Pestiado: com alguma doença


Pexada: acidente


Piá pançudo: guri bobo


Podá: ultrapassar, o mesmo que apodá


Potiéca: Meleca



Pozá: dormir em algum lugar


Pruziá: conversar


Quebrá: se dar mal, por exemplo: o gringo lá se quebrô.



Rancho: compra do mês


Relampejando: trovejando


Resbalão: escorregar


Rinso: sabão em pó


Sertão: mato fechado, sem colonização


Sinalêra: semáforo


Táio: corte


Tchuco: bêbado


Trupicá: tropeçar


Tunda de laço: apanhar


Vortiada: passeio


Xana: vagina



Ximia: doce de passar no pão

Xucro: violento, mal-educado

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O caminho das pedras no Sertão do Paraná


Sob a luz da lua mesmo com sol claro, no asfalto quente ou nesse caminho das pedras, pra fugir da chuva e ver o olho do céu se abrir, adubando o solo com o que está morto pra ver o que é vivo nascer. Lembro o quanto acreditávamos ser obrigados a viver em cemitérios, entre pessoas mortas que querem nos corroer com sua ferrugem e as mentiras que inventam... Corria contra o tempo, agora estou a favor dele, agora sonho com histórias de gnomos e pescadores sem cabeça em volta de um fogão de lenha, abri um orifício além daquela cela de prédios e construções, agora vago entre caminhões me jogando fumaça e imensas colheitadeiras me atirando barro no rosto, desviando galizés, porcos chucros e cavalos selvagens na estrada. Sou o equilíbrio e a força que guiam meus olhos como um farol no infinito das rodovias. Sei que a morte continuará me perseguindo mas estou dois passos a frente dela!
(Itapejara d'Oeste, caminho das pedras, 16 de outubro de 2011).

sábado, 15 de outubro de 2011

Os Leite contra os Bento: O pau comeu solto em Campo-Êre (parte I)


“Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus, mesmo, se vier, que venha armado.

Não é a terra que define o sertão, mas o sangue que pinga sobre ela
Conceituar o que seria o sertão se tornaria uma tarefa árdua, porém, procurada por alguns intelectuais como Guimarães Rosa que em 1956 soube expressar com sábias palavras o que é esse pedaço de terra.

Mas a mais firmante definição se dá por Euclides da Cunha que ao invés de definir o que é o sertão preferiu usar a expressão "sertões".

É nessa pluralidade que o sertão ultrapassa fronteiras, nenhuma região pode deter pra si a exclusividade do título de sertão. O sertão sangrento, de tantas Histórias que não são minhas, são de todos, ultrapassa os conflitos entre coronéis e cangaceiros do nordeste brasileiro, vai além das incursões dos bandeirantes em Minas Gerais e voa raso por cima do sossego dos caipiras paulistas chegando ao rincão do sudoeste do Paraná...

1980-1990
E um pouco além dos limites do estado paranaense, no município de Campo-Erê-SC as plantações de milho estavam altas para a colheita. Formada, como todo sertão, por famílias caboclas e de gringos, a sede Campo-Erê via acontecer no pavilhão da igreja os maiores bailões da região.
"Se foi tiro ou cimbronaço, pago pra ver
Deixa que venha no braço pra se entender
Se o facão marca o compasso, deixa correr
Enquanto sobrar um pedaço vamo metê"

(trecho de Baile de Fronteira de Luiz Carlos Borges)

De 30 a 70 cm, fura-buxo de qualqer loco
Chegava no baile 7 'home', todos com a cara que era 'perau' de brabo. Minutos antes estavam no matão de atrás da Igreja escondendo num taquaral 7 facões pra depois do baile:

-Vamo se fincá pro baile, os Leite vão tá lá e o bicho vai pegá pra eles - disse Sebastião Bento, filho mais velho de 6.

- Nego Gato, agora que tu saiu do cadeião, vamo te vingá com o bucho daquele "amardiçoado" vai escorre pelo chão do baile - disse 'véio' Arcides, patriarca que gerou os 6.

Alcides, o Bom. Patriarca dos Bento.
O piazinho da turma, Maurinho, 14 ano, da turma olha de longe uma mocinha que ele poderia "tentiar" (conquistar). Uma, loirinha e magrinha é filha do véio Reco, gringo, era uma onça de brabo e esperto que nem raposa. Logo leva um surdão na orelha de seu irmão Nego Tive:

- Ocê tá aqui pra vingá teu mano rapaiz! Não tá aqui pra tentiá muié, ela é boa má dexe pra depois!

Os olhos úmidos de choro do rapaz fitavam os cabelos louros de sua amada que conhecia da escolinha, enquanto era distanciado dela puxado pelo braço até o balcão onde lhe foi servido um gole de cachaça.

Do outro lado, o sangue também fervia. Os Leite, em 7 também, enxergavam de longe e cochichavam formulando uma estratégia de batalha pra pegarem os 7 negos numa avoada.

Isso tudo foi nos primeiros 5 minutos de baile, o conjunto começa uma vanera e Nego Saci, 18 anos, o mais novo dos Leite, dá um pulo de cima do palco puxando de dentro das cueca uma adaga enquanto o chefe da família Nego Tiziu cai pro meio do pavilhão gritando um urro selvagem que parece ter interrompido o baile todo. Era a ordem de batalha!

A peleia não era só entre as famílias, os seguranças tinham de ser os primeiros a ser rendidos. Ambas as famílias deveriam "erguem no laço" o borracheiro Gumercindo, o peão Valdinei, o mecânico Zaquel e o ministro da igreja João Taborda. 

Mas não foi um minuto todos aqueles que deveriam proteger o baile estavam no chão, nenhum gringo brigava como aqueles que possuíam 4.000 anos de lutas tribais no seu sangue. Descendentes de indígenas que brigavam com quem fosse e pelo que fosse.

E não era somente as duas famílias que iam entrar pro pau naquela noite. Só nesses primeiros momentos, 17 brigas já aconteciam em todo pavilhão. Uns se soqueavam por mulher, outros por bebida, outros por time de futebol... Os motivos eram infindáveis.

Do lado do conjunto tocando, assistia a tudo o maior fazendeiro de Campo-Erê: Laurindo (o sobrenome não posso citar) que ria juntamente com o véio Reco.
Os Bento estavam em total desvantagem já que os Leite estavam armados com pexeiras prontos pra faquear Deus e o mundo naquele rodeio de pau! Conseguiram entrar pois o ministro Taborda não revistou os 7, por que? Tudo a mando do coronel Laurindo...

Enquanto isso, Maurinho voltava pra dentro do baile com os 7 facões jogando-os para seus irmãos que estavam na frente do conjunto que continuava uma vanera.

O baile mesmo não parava, no meio do fudunço, os casais iam bailando escorregando no sangue derramado no chão que logo empossava também de barro, cachaça e suor...

O pau ainda ia comer solto praquelas hora!
_________________________________________________________CONTINUA!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Sangue, suor e cachaça: A bodega do Nêne e o tesão do sertão (parte 2).



Logo naquela bodega, um parente distante do índio Condá havia chegado. Vindo de Chapecó-SC, era um charruá, tipo um índio adaptado a vida do branco, caçador e comerciante do mato que ia de cidade em cidade vendendo o que pegava no mato. Só que o charruá Viriato de uns anos pra cá estava convertido em um verdadeiro pirata do sertão, amarrado no seu cavalo baio e pegando chuva tinha um guri de 8 anos de idade.


O piá já tava todo cagado, virado em merda. Mas foi dentro da bodega que deu a bosta, logo o charruá Viriato que diziam ser "índio civilizado" mostrou que não honrava seu adjetivo. O cara tava como dizem "peidando de bêbado"  foi puxa pelo braço Marilu, que estava no colo de Araújo:

-Ocê deve de ter perdido o amor pela vida - falou Araújo, que logo ordenou seus 2 capangas a amarrar Viriato.


Esse por sua vez já tirou um facão que diziam que cortava até poste de luz, mesmo que esses não existissem na época. Fincou no braço de um deles, dando um voadora no outro e logo apoiando a outra perna no pescoço do outro deu um salto mortal e caindo de pé e sobreolhando ambos por debaixo da aba do seu chapéu. Araújo gritava!


Marilu fugiu gritando lá pra trás onde tinha um tanque e onde estava Ianara e o tropeiro Nego Jundiá, ou seja, ali o pau tava comendo também...


Sei dizer que só pararam Viriato com 7 tiros, um em cada xacra do seu corpo. O último tiro atingiu da sua espinha passando pelo "toba" até explodir seu saco. "Mááá home, fiz os bago do peão voar pra fora da bodega", dizia Nêne, autor dos disparos.


A festança na bodega correu solta, logo chegaram dois gaiteiros, Araújo jogava carteado com seus dois capangas e um ervateiro fumando um paieiro de meio metro daqueles que dava pra ir de Viamão-RS a Sorocaba-SP fumando o mesmo.


Esse pairento que se considerava liso no carteado era o véio Tadeu, um verdadeiro malandro de barraca, apaixonado pela buxuda gordaça Hermelina. Só que essa não lhe dava moral, metido a poeta declamava versos para ela com adjetivos como "meu suculento toicinho", "meu torresminho crocante"... 

O pior que a bicha não dava o braço a torcer pelo peão. Nêne chamou Tadeu no balcão e lhe serviu uma jurubeba:


- Má home, ocê 18 fio (filhos), vem aí pra se putiar com essa loca aí home! Largô os piá trabalhando na erva-mate, fazendo contrabando e não larga um pila drento de casa, crie vergonha nessa cara home, tudo bem que a buxuda aí se mija de tesão por você, má vá fazê festa com a tua famía (família) - lhe aconselhava Nêne.

- Cara! Eu sou cristão! Dizimista fiel, ajudei a construir a Catedral de Palmas! Minha muié é honrada, com ela não rola cu nem putaria nenhuma. Já com a Hermelina eu como a vontade, chego de arranca fejão de atrás dela! - respondeu Tadeu fumando seu paieiro.




Por coincidência uma buxada estava sendo servida na bodega. Só que Araújo, já embriagado com o "pau que era um osso" como diziam, quis dar uma de machão na frente da mulherada:


- Má o que que é isso!? Tô pagando a festa e me servem merda de boi pra comê!?

- Mas cara! É o que tem pra hoje e esse nem to te cobrando, salame, filé, charque, acabou tudo no sertão - retrucou Nêne.


- Mas ninguém aqui vai comer merda, eu trato bem meus funcionário e os meus buxo por isso não meto neles buxo dos otros, mas os teu já vão com arroz! - falou isso, sacando seu 38 e detonando a panela de barro onde estava a buxada.


Hermelina logo saiu pra fora pra junto de Jundiá que estava desossando Marilu - a amante de Araújo. A História tava pra feder muito mais do que aquele buxo explodido por toda bodega.

Nêne se cagou de medo e baixou a guarda pra Araújo que logo lhe deu uma coronhada com o revólver dizendo:

- Tá perdoado, ma saiba seu merda que quem manda nesse sertão, nesses matão esquecido por Deus, SOU EU! E por falar em comer cadê a china que estava aqui no meu colo (Marilu).


Aí que o negócio derreteu. Foi de atrás da bodega que sua ilusão foi desfeita, o "baita serpelo", como contam, de Jundiá se atravessava pra "drento" de Marilu enquanto essa gritava de prazer. E foi assim que ambos morreram, na melhor situação que um ser humano pode estar.


Araújo viu cair sua amante com correntinhas, pulseiras e o vestido que ele havia lhe presenteado além de uns 1.000 réis que ela havia lhe furtado e que estavam dentro do seu sutiã.


Mas a catuaba que o bicho tinha tomado já tinha "fazido" efeito! Não tinha como segura, com o "jumbrelo" já pra fora da calça ele caiu em cima de Hermelina, mas logo foi interceptado por Tadeu:


- Nessa, tu não vai metê a mão!

- Então vamo vê - com o revólver esfumaçando apontou para Tadeu que logo que rebostiou tudo, mas ficou firme na sua posição.


- Atira seu merda, atira, que nenhuma mulher quer dar pra um cabra ladrão de terras que nem você, no máximo querem teu dinheiro, seu explorador pau no cu!


Araújo matou Tadeu e entrou pra dentro como se nada tivesse acontecido, dizendo: 


- Arrumá otro pra fazê dupra com eu (dupla comigo).


Hermelina viu seu amado morrer por amor, coisa que carregou em suas banhas e na sua memória até o fim de sua vida. Uma puta gorda que guardava consigo um amor fúnebre mas belo do amado que a defendeu... 

Fugiu com o cavalo do charruá e com o jovem guri que havia sido raptado pelo "índio civilizado" e agora iria viver numa zona com Hermelina. 

O olhar daquela criança antes inocente, agora conhecia o verdadeiro sabor do sertão, um sabor que palpitava no peito de qualquer "bicho macho" daquelas bandas e que possuía o gosto de suor, sangue e cachaça.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Filosofias do sertão: A mulher e a uva

foto retirada de um
dos parreirais de Mariópolis
Esse final de semana passei no parreiral do véio Arlindo em Nova Concórdia (Francisco Beltrão), arrancava as uvas com o meu canivete e chupava ali mesmo, logo perguntei ao gringo o que se ele sabia o que era uma mulher e ele logo respondeu sem exitar:

Iiiiih cara, todaa muié é como a uva. Tantas partes a compõe. Ela não é uma. Ela é o todo. Provarás um gomo e a quererás toda. A casca, o suco, a semente. O cacho todo. Quando é doce, azeda, ácida, amarga. Porque há mulher para todos os gostos. E uma só, tua, para todos os teus gostos.

Entre tantas estou a procura dessa uva até hoje...

inspirado em:
http://www.recantodasletras.com.br/

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Recortes de jornais

"A manhã vitoriosa, assim relato o fim daquela madrugada revoltosa. Raiava o dia no sertão paranaense, o sol se mirava entre as nuvens que a noite toda choveram e entre as araucárias em pé, algumas destoavam já denunciando o desmatamento e a derrubada praticada pelas serrarias vindas de Palmas. Em contrabalanço com a subida dos serreiros, nos cantos de uma picada que seguia para o morro do macaco se podia ver um rio de sangue que coagulava entre o barro. O saldo era esse, a batalha havia sido vencida por Ermelino Gutierrez Leãos, coronéis escrevem assim a História dos vencedores. E só podem escrever com linhas de sangue, tinta rubra usada dos cadáveres onde pássaros negros pousavam, esse era o luto daquele funeral a céu aberto. Mais uma História daquele sertão esquecido por tudo que há de Brasil leste-afora. Diziam que ali era o inferno, prefiro deifinir de outra forma: Fim de mundo".
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"Era interessante observar atentamente tal paisagem. As balas ricocheteavam entre os pinheiros que exalavam um odor parente do eucalipto. A primavera parecia não florescer algo semelhante a vida, os corpos caiam entre o campo, enquanto os bois fugiam para outras pastagens. A natureza se encontrava com o homem, quem tinha pernas dele fugia, o sangue cubria o verde, a morte cubria a vida com seu manto fúnebre. Um detalhe, permaneciam alguns, retiravam-se outros. Mas o mais interessante era o seu Zébedeu que dentro da patente cagava a vontade escutando o zunido das balas na propriedade vizinha ".
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"Vinha uma carroça lá do fundo, costeava o sol e o canto da estrada recém-cascalhada. A atenção de todos se colocava naquele horizonte, naquela peça de três tábuas amontoada de moscas. Era a carroça da carne vinda de União da Vitória. Parou na frente da praça pra fazer um verdadeiro despacho da sobra. Era o que havia restado, era o que havia ficado. Ossos que pareciam meio roídos se misturavam ao mocotó, uma carne bem mal-charqueada, mal-temperada e por isso podre, roxa, rodeada de larvas. Mas praquele povo parecia não fazer diferença, pois possivelmente muitos ali nunca tinham visto carne, por isso não se importavam nem com odor nem com aparência. Foi o dia em que fui convidado por 2 de cada 3 vizinhos pra comer uma sopa de brodo na casa de cada um. Me satifiz com um sanguique de salame".
(Clevelândia-PR, relatos de um jornalista vindo da capital da província, entre os dias 14 e 30-04-1901)

domingo, 28 de agosto de 2011

A família sagrada do sertão.


Fazenda São Francisco de Sales (atual Mariópolis), às margens do Rio Veado, 1947.

Como o sopro da morte ou além dela, a espera de meu ressurgimento, aquela manhã era cortada pelo cantar do galo e pelo caboclo que acordava cedo e ia até a roça com uma enxada remexer o adubo pra brotar o milho. Uma garoinha casava com o sol nascente e fazia daquela paisagem uma verdadeira pintura numa aquarela chorosa do Sertão do Paraná.

Os porcos cachaços (machos) grunhiam no terreiro comendo abóboras e morangas, a sua esposa acendia o fogão a lenha improvisada e o seu piazinho debulhava um milho para as galinhas carijós que ciscavam em volta da casa.

O cotidiano se mostrava a única opção, a não ser quando rolava um bailão nos taquarais na comemoração do Espírito Santo, logo depois da missa. Se pudéssemos resumir a História desses caboclos no Sertão do Paraná seria necessária apenas uma palavra: silêncio.

Roceiros e safristas cuidavam a horta, sua fonte de alimentação, garantia da economia de subsistência ou desenvolvendo roças de milho. Mateiros e sertanistas trabalharam na lida com animais silvestres como porcos-do-mato, onças e tatus extraindo suas peles e usufruindo inclusive de suas carnes. Religiosos e devotos, promoviam um culto próprio em contato com a natureza, dela extraíam ervas para fazer chá e desempenhar o papel da medicina popular na região. Posseiros e imobiliários, comercializaram por um baixo preço suas terras e não receberam nenhuma documentação do governo por terem administrado essas terras.

Penso enquanto as linhas se tecem numa ruptura. Os seres silenciosos e sossegados do mato não puderam escrever sua própria versão na História, portanto, durante muito tempo ficamos com a versão dos vencedores, daqueles que vieram depois, os gringos.

Interrompido em sua travessia o caboclo, seu Nerso, foi chamado por um homem que estava sobre uma carroça vindo do norte Rio Grande, queria ali se estabelecer, comprar uma terra, montar seu rincão sobre o que as autoridades diziam estar “desabitado”. A troca foi feita na hora, a carroça foi trocado pelos 120 alqueires que o caboclo possuía, até o fim da tarde a família de seu Nerso foi até a bodega mais próxima e assinou uma papel onde estava desistindo das terras onde viveu seus 40 e poucos anos. Naquela época, o sudoeste não possuía cartórios, logo quem tinha toda autoridade na colônia era o bodegueiro, o fio do bigode valia a palavra desse homem que ficava de atrás do balcão espreitando todas as negociações.

No outro dia, o gringo Tarturino chega na bodega se “gavolando” de ter “logrado” o caboclo, ou seja, se achando porque fez um grande negócio porco enquanto ia se turbinando de uma pinga de mentruz com alho:


-Finquei mesmo, o 'caboco' teve que sair se peidando sei lá pra onde, fui mandado aqui pelas autoridades da capital, agora eles me mandaram fazer uma roça de 'mio' (milho) e criar uns porcos. Sim sim, agora os grandes de São Paulo vão depender do nosso milho, eu tô aqui e não é do nada, 'temo' que 'fincá' a patrola, derrubar esses mato de araucária e fincar 'mio' aí pra fazer dinheiro. Soquei nele uma carroça 'véia' que eu tinha, com as roda tudo entrevada, ele aceitou na hora. Tô indo buscar outra que meu mano fez pra mim em União da Vitória.


Alguns dias depois, na viagem, dito e feito, aconteceu a presepada, o caboclo se estrepou na estrada quase chegando em Villa Nova (atual Pato Branco), descendo um barranco liso, a roda tastaviou (quebrou no meio), no tranco logo derrubou seu guri pra baixo dos cavalos que se assustaram e pisotearam seu frágil corpo. A tristeza tomou conta do casal que logo teve de levar o corpo do seu primogênito de 6 anos para ser enterrado num campo santo na vila ali próxima.

O leitor atento na lida e na peleia do andamento da História logo deixa de lado um questionamento interessante. Por que os caboclos vendiam aos gringos suas terras a tão baixo preço?

O brique (troca) se justificava de forma simples, os caboclos viviam há décadas ali, mas nunca ganhavam do governo qualquer escritura, o território era considerado “desabitado”, por isso também chamado de Sertão, logo o governo ignorava a existência de qualquer povoamento indígena ou caboclo na região simplesmente por outro motivo quantitativo.

A grande população cabocla do sudoeste não produzia renda, plantava roças de milho e criava porcos, mas sem almejar lucro, sem derrubar uma grande faixa de matas, sem fazer queimadas... Logo, a ausência de cobiça nos olhos serenos do caboclo, seus pés descalços, sua mão calejada segurando o mate eram detalhes insignificantes para os políticos capitalistas que nem sequer sabiam o que era o Sertão, preferiam dizer que ele não existia. Ao momento que esses seres do mato perdiam suas terras tinham que se embrenhar em outras campinas procurando outras formas de vida.

Nem pensavam em resistir perante o sistema que os expulsava de suas terras, eram da paz, mas de onde vieram esses caras com a pele “cor de cuia” que aqui viviam?

Muitos eram fugitivos da Guerra do Contestado (1912-1916), lá seus avós, pais, já haviam perdido suas terras para uma companhia internacional ali a mando para construir uma ferrovia e desenvolver a região nordeste de Santa Catarina e foram expulsos a laço e a pau pelo exército que foi protagonista em favor do Capitalismo e contra as famílias que viviam ali sossegadamente...


Após esse parênteses, nossa História continua, o acidente ocorreu na beira de uma sanga, a mãe segurava o filho no colo, banhando seu rosto entre a água fria corrente e o calor de suas lágrimas que cobriam o local de tristeza. Do horizonte, visto ofuscadamente pelo sol, aparece um homem, barba por fazer, corpo coberto pelo hábito marrom, um capuz que cobria sua cabeça, sandálias de couro, assoviando uma música junto de um pombinha campeira que segurava no dedo indicador aquele homem saiu correndo até a mãe em prantos lhe tirando o menino do colo e o apertando contra seu peito a criança pestanejou e parecia segurar em sua mãozinha o escapulário do monge.

Logo um clarão de fogo pareceu cegar instantaneamente o casal que logo só podia enxergar tudo como um eterno leite enquanto o jovem voltava ao colo da mãe e o monge sumia no clarão do sol daquela tarde do Sertão. Segundos depois, a íris do olho da mãe se reanima e ela vê seu filho dormindo com o corpo intacto, são e salvo bocejando e se levantando, na sua palma da mão esquerda uma chaga havia aparecido. O marido improvisou duas ripas para consertar a roda da carroça, a mãe com receio logo afastou o menino dos cavalos, mas esse logo se desvencilhou dos braços protetores de sua gestora para passar a mão nos negros alazões que o haviam machucado...


A família sagrada do sertão estava na estrada outra vez.

domingo, 21 de agosto de 2011

Contos do Rio Ligeiro beirando o c* do mundo - Badanha Senior e a chacina dos Negos Buraios



1947: O rio, sua velocidade descomunal, suas enchentes contínuas e desastrosas numa terra-sem-lei, palco da convivência de gringos e caboclos, desavenças, vinganças eram comuns no dia-a-dia do lugar chamado de "c* do mundo". (inspirado em relatos históricos)

Entre os afluentes do rio Chopim estava o Rio Ligeiro, acostumado a inundar com velocidade Villa Nova (atual Pato Branco), foi assim batizado ou melhor apelidado pelo “Ligeiro”, um paraguaio que ficava na encosta do rio fazendo briques (trocas) com qualquer pelego ou dinheirudo que ali passasse, sua moeda de troca era a erva-mate, vivia na corrida pra trocar tudo pela chamada “erva do diabo” - combustível potencializante e um afrodisíaco natural do sertão.

Logo ao lado da casa e do escritório improvisado do Ligeiro havia uma raia de cavalos onde a machaiada de Villa Nova se reunia numa raia pra ver os cavalos emparelharem enquanto já rolava uma aposta e a pinga ia comendo solta. Enquanto o martelinho (copo vazio de pinga) batia o balcão improvisado, os homens pegavam o chinaredo (mulherada) pra dançar. Mas ali não era apenas ambiente de confraternização, entre apostas rolando, copos vazios e mulheres faltando o tiro comia solto também. Lembro de uma prosa que rolava entre Mané Figurinha que se dizia o maior dono de terras da costa do Chopim, o “home véio” morava no Morro do Sovaco, esse morro que pra descer todo mundo acabava fedendo sovaco de cansado, então imagine o estado do peão.

Junto dele estava Badanha Senior, botas brancas, ficava inconfundível ainda mais fumando cachimbo – seu apelido mais tarde se tornou “Sócio da Souza Cruz”. Figura era sossegado, só pensava em trabalhar, só que era mentiroso e exagerado. Badanha era “bão de desaforo”, tanto que enquanto pagava um vermute com gelo pra duas chinas teve que mexer com seis caboclos do Buraio – lugar onde se produzia carvão no antigo Bairro Godoy, atual Vila Verde -, estavam no fudunço do lado da cancha de bocha tomando um gasosão:

-Oh pé sujo! Vá 'trabaiá' mais 27 ano pra comprar um bota dessa – bradou Badanha Senior.

-Home, pareee loco véio, os piá tão de boa ali – exclamou Figura.


Entre todos, praticamente azuis de tão sujos de carvão, cochichou o menor de todos e mais coceira, Fidelzito, o revolucionário, o crítico, o “inticão”, na chamada “quebrada” onde morava, anos depois representou a “banca” e venceu o inter-bairros de coceira, só coçava mesmo:

-Vamo bochá, vamo bochá?


O caboclo Viriato logo ironizou, retrucando com voz alta:

-'Vamo' se fincar mais pro lado que tá ali duas almofada com perfume de sovaco escorando as puta no barranco – só que falou só pra acender o estopim, ia fazendo exatamente o contrário, chegando mais perto dos dois com sua trupe esfumaçada.


Entre eles estava Nego Tiguera, só acompanhando o bando, um caboclo assustado que procedente do Contestado. Tiguera não gostava de briga, nenhum pouco. Além dele, os cinco queriam ferver o ki-suco, erguer o 'reio' naqueles gringos chamados de “boca aberta”.


-Oh 'rapaiz', vai pra lá que 'nóis tamo' proseando aqui home véio, tá sujando meus garrão com esses pé – Bagé falou pra Nego Wardo, o maior de todos, um caboclo virado em cicatrizes e em marcas de gado pelo corpo, caolho e com a garrafa vazia da gasosa entre os dedos suada e prontinha pra ser decepada nos 'corno' do gringo inticão.

-Comé que é, gringo cara de bagre? - Questionou Nego Juca que foi logo peitando Badanha enquanto era interrompido por Figurinha:

-Bá home, tome um gole do meu gole e fique com a minha 'muié'.

-Sai fora com essa fonte de 'gonorréiagem', não achei meu pinto no chiqueiro pra comer putedo! - exclamou Nego Lázaro.


Enquanto isso, Fidelzito apareceu com uma faca enferrujada e sem cabo, roubada de sua mãe que a usava para sangrar os porcos-do-mato que caçava à unha nos matos do atual Vila Verde. O pequeno coceira foi logo fincando no pulmãozão de Badanha que logo caiu sangrando. Foi aí que o tiro correu solto a partir da cancha de bocha enquanto gringos racistas xingavam os buraios de "negada do diabo".

Nego Tiguera sobreviveu pois se fincou dentro de um buraco de tatu pra fugir do degladeio, a chacina dos buraios não passaria por inquérito porque a pequena vila não possuía polícia. Apareceu o pirata do Chopim, Polaco Sukita, cabeludo e de óculos escuros, jogando os corpos dentro de um barquinho caíco proseava com o chefão Badanha e dizendo-lhe um conselho:

-A lei tá boa, não vai dar cadeia!


sábado, 13 de agosto de 2011

Pau, pau e pau no Rincão Torcido - Parte I


Lá pelos idos de 1947, após a fundação da Colônia Agrícola Nacional General Osório (CANGO) o pessoal de Beltrão ia dum lado pro outro do sertão do Paraná planejando bailões pra integrar a região recém-criada. A gringaiada peleava nessas lidas para poder se divertir, enxer o c* de cachaça e dar tiro pro alto (ARTE: Wellington Mitrut).


Atrasado, desceu corrido de cima do morro do urubu [1], saia de "drento" da patente o Gringo Rebosteio desbravador do sertão do Paraná e um dos fundadores da CANGO. Tava completamente atrasado para o baile que ia eleger a Miss Rincão Torcido... o porque do seu atraso logo conto com mais uns dois dedos de prosa...

Desceu desbarranquendo e torcendo o bigode - como de costume -, pisando nas poças d'água, bostas de égua chucra e tudo que vinha pela frente enquanto ia erguendo ceroula e o seu mijão [2] por cima e se fincava pra subir no trator do Véio Guanxume, véio mais grosso que pino de patrola, que já tava soltando uns "Porco dio, vamo caganeira" na boléia do trator.

Logo na caçamba ia Nego Vardo, um baita bugrão que só falava trabalhava que nem um potro (cavalo) dando coice na cerca, mááá quando o assunto era 'muié' e cachaça o home não ficava nenhum pouco atrás. Era mula do contrabando que vinha pelos rios Sant'Anna, Chopim e Marrecas.

Além dele, o Zandoneno, um cara susse, da paz mesmo, não mexia com ninguém, era bom amarrador de palanque, estrategista de erguer segurar bracatinga que aguentava gaiteiro gordo que nem porco o dia inteiro no palco dos bailões do sertão.

E João do Potreiro, comedor de galinha, pato, marreco, começou com as aves, logo pulou pra porca, ovelha, cabrita mas dizia ele que seu prazer maior era com égua. Acontece que essas História zoofílicas ele não abria assim, guardava pra seu prazer íntimo. Ah não ser quando no seu rancho, dentro de um galpão, as cadelas davam uns uivos altos e todo mundo se ligava da orgia canina que lá rolava.

E logo Rebosteio pintou na banca, pulando a tábua da carroceria e caindo com os dois pés sobre o tabuedo. Mas Gringo Rebosteio não é Rebosteio se não tiver incrementado de um total cheiro fétido e anal de bosta...

5 minutos antes, Rebosteio na patente ia dizendo enquanto sua merda caía no fundo da vala:

-Puta merda! Acabo o sabugo de milho e agora com o que que vô limpa o cu?

Logo seus pensamentos foram interrompidos pelo gritedo do véio pino de patrola:
-Porco dio, vamo caganeira, largue o merdedo aí rápido que tamo atrasado.

Rebosteio passou a mão nas pregas do seu toba e estoletiou a bosta na parede do lado duma imagem duma índia pelada da revista Cruzeiro. Descendo o barranco, não se ligou do estado que estava sua mão e foi logo torcendo o bigode.
Chegando no trator foi logo questionado pelo quietão Zandoneno que nunca falava mas tinha se ligado o que tinha acontecido e logo não perdeu a tirada:

-Véio, como que tu faz pra deixar o bigode lustroso desse jeito?
-É que eu TRÓÇO todo dia - logo Nego Vardo bêbado se despiguelou de dar risada e se mijou todo no chão enquanto aquele trator pulava pelos buracos da estrada, Guanxume ia soltando seus "porco cane" na boléia e a calça vartomundo de João do Potreiro ia se avolumando enquanto observava uma tropa de éguas que ia cruzando uma clareira entre a mata de araucárias, escutando uma gralha negra corveando sobre uma árvore canela, uma família de tatus ia se embucando na toca e a brisa tocava o rosto dos peões de lida que iam atravessar o matagal por três dias para chegar em Clevelândia armar aquele baile...

Esses personagens se tornam meros detalhes adaptados a natureza, a verdadeira História está na bela pintura que era a paisagem do sertão...

Logo um tiro interrompeu o voo a passarada, Guanxume Pino de Patrola com seu trabuco esfumaçando numa mão, um litro de pinga na outra e segurando o volante do trator com seu bagos soltou um grito: "Porcozio: Pau, pau e pau no Rincão Torcido!"

1-Inspirado e retirado de "Cabrilinda" da banda Paraná Blues.
2-O "mijão" era uma calça usada por baixo da bombacha para que ninguém se esfriasse nas veredas do inverno sertanista do sudoeste do Paraná